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PORTO ALEGRE
- Ela carrega um sobrenome que evoca reminiscências de um passado
impregnado de romantismo e de furor libertário. Aleida Guevara,
ou Aleidita, como é conhecida em Cuba, é filha de um casal
de revolucionários: Ernesto Che Guevara, executado em 1967, na
selva da Bolívia, onde perseguia o sonho quase solitário
e delirante de um levante continental; e Aleyda March, por quem Che se
apaixonou quando comandava a guerrilha cubana, na idílica Sierra
Maestra, e com quem se casou em junho de 1959, seis meses depois do triunfo,
deixando sua primeira mulher, a peruana Hilda, com quem já tinha
uma filha. O
convívio com o pai foi curto. Quando chegou Che morreu, Aleidita
tinha 5 anos. É a Fidel, o grande companheiro de Che, que Aleida
se acostumou a chamar de "papá".
Numa entrevista conturbada,
cercada de uma claque de admiradores embevecidos com a filha do grande
ídolo desse Fórum Social, que se enraivecia com as perguntas
e aplaudia animadamente cada resposta, Aleida, alegre e enfática,
sem perder a esportiva, falou da herança do pai e de seu amor pela
Revolução Cubana. "Meu pai dizia que nós, revolucionários,
temos de ser românticos",
diz ela, ecoando uma frase que até hoje freqüenta cartazes
e camisetas da juventude sonhadora: "Hay que endurecer, pero sin
perder la ternura jamás."
Estado - Como é
ser a filha de Che Guevara?
Aleida Guevara - Tem sido um grande privilégio para mim como
ser humano conhecer sua vida, ter uma mãe como a que tenho, que
me tem dado tanta ternura, que me ensinou a respeitar os seres humanos,
acima de tudo. As pessoas, como você, vêm conversar comigo,
por ser a filha de Che, e tenho a oportunidade de lhes dizer as coisas
que estamos vivendo. Vivo com dificuldades, como todos em Cuba. Somos
um país bloqueado. Temos tremendas dificuldades econômicas,
todo mundo as conhece. Mas se vive com muita alegria e dignidade em Cuba,
porque se está defendendo um projeto de um povo de viver de uma
maneira diferente. Ensinam valores muito lindos ao povo. Fui
médica internacional um ano na Nicarágua e dois anos em
Angola. E me sinto a mulher mais completa do mundo por tê-lo feito.
Pagar um pouco a dívida que temos com a África. Estar na
América Latina é um dever para os cubanos, porque (o líder
independentista cubano José) Martí dizia que, do Rio Bravo
até a Patagônia, todos somos uma mesma nação.
A luta dos povos indígenas em
nosso continente, pela dignidade, é questão de Cuba, também,
somos parte dessa terra. Cada vez que vou a um lugar e as pessoas se interessam
pelo que diz a filha de Che, sempre esclareço que quem está
falando é uma mulher formada por uma revolução socialista,
que a defende até as últimas
conseqüências, porque quero para minhas filhas o mesmo que
tive: a mesma dignidade, a mesma alegria, a mesma possibilidade de dizer
o que penso sem nenhum tipo de temor. Não creio em Deus, mas creio
no ser humano. Meu pai sempre dizia que nós, os verdadeiros revolucionários,
temos de ser sempre muito românticos, porque, se não, querido,
como, demônios, você enfrenta esse mundo? Tem de ter uma grande
dose de amor e de ternura para tornar seus sonhos realidade.
Estado - Que lembranças
a sra. tem de seu pai?
Aleida - As lembranças são muito poucas. Sempre perguntam
a mesma coisa e se vai acabando a magia. Então, fiz um documentário
no ano passado e chega: não falo mais disso. Se quiserem, assistam.
Estado - A sra.
não gostaria de poder eleger um presidente democraticamente?
Aleida - Mas nós acabamos de eleger...
Estado - Mas é
sempre o mesmo...
Aleida - Não. A cada cinco anos, Cuba tem eleições
provinciais e nacionais. Acabamos de realizá-las, e 97,6% da população
foi às urnas. Havia duas cédulas: uma provincial, com quatro
candidatos, e outra nacional, com três. Você podia votar para
cada uma dessas pessoas ou por nenhuma ou por todas. Sabe quantos votaram
por todos? 91% da população. De maneira que temos
confiança absoluta nas pessoas que elegemos. Porque não
é um partido que as lança. Elas são lançadas
da base. E são, depois, analisadas pelas assembléias municipais,
que decidem se vão ou não à candidatura.
Estado - As mudanças
econômicas em Cuba indicam que o socialismo está acabando?
Aleida - Mas, homem, o que você está dizendo? Você
imagina o que é um país bloqueado pelos EUA? Vou lhe dar
um exemplo fácil do que é o bloqueio: sou pediatra. Estava
com uma menina de cinco meses com sangramento. O medicamento para esse
caso, infelizmente, era de patente americana. Nós tínhamos
o dinheiro para comprá-lo. Você acha que alguém quis
vendê-lo?
Agora, me diga: uma menina de cinco meses tem ideologia, pode ser condenada
por morar num país? Apesar desse bloqueio, e graças à
sociedade socialista que temos, os recursos que nos chegam às mãos
se convertem em remédios, em educação e bem-estar
social. Eu estava na Espanha uns dias antes do golpe contra o presidente
Hugo Chávez (em abril) e fui recebida por um homem do Partido Socialista,
que se meteu a falar contra Chávez. Perguntei se ele conhecia a
Venezuela. Ele disse que não, mas que a imprensa estava dizendo
que Chávez era um tirano. Dois dias depois, golpe de Estado. O
que estava fazendo a imprensa espanhola? Preparando a opinião pública
para o golpe, portanto, sabia de antemão.
Estado - Talvez
a imprensa espanhola estivesse simplesmente noticiando os fatos e a sra.
não esteja acostumada com imprensa livre...
Aleida - Olha: estou mais do que acostumada com essa imprensa livre,
porque "livre" significa que um homem seja capaz de apresentar
seus problemas, e obtenha resposta. Tenho uma amiga na Espanha que diz
que lá há muita liberdade de expressão. Dei uma entrevista
na Espanha, e a jornalista, com muita vergonha, porque era uma boa profissional,
me disse: "Sinto muito, mas não posso publicar isso, porque
dizem que não se pode dizer tal coisa..." Mas, homem, o que
é isso?
Estado - Mas esta
entrevista vai sair num jornal brasileiro, enquanto que se, em Cuba, alguém
falasse mal de Fidel Castro, não sairia na imprensa...
Aleida - Acontece que em Cuba ninguém, ou muito pouca gente,
vai falar mal de Fidel Castro, porque elegemos esse homem muitas vezes,
sabe por quê? Porque dedicou toda sua vida a esse povo que, antes,
tinha 33% de analfabetismo. Agora, não há analfabetos. A
taxa de mortalidade infantil era
de 60 por mil nascidos vivos. Agora, é de 6,4. A ilhota de Cuba,
que era um prostíbulo dos EUA, hoje é conhecida no mundo
todo como o único país que neste momento tem força,
liberdade e soberania para dizer "não" aos EUA, e manter
o "não" até as últimas conseqüências.
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