Problema é a renda, não o bloqueio
Prateleiras cubanas estão abarrotadas de produtos a preços equivalentes aos do Brasil. Mas faltam compradores

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Domingo, 24 de setembro de 2006

HAVANA

Hugo Chávez pode ser muito bolivariano, mas não rasga dinheiro. As gôndolas dos supermercados cubanos estão repletas de latas de ervilha, cenoura e milho, potes de ketchup, mostarda e maionese da marca La Giralda, Hecho en Venezuela.

Mas o mercado cubano é democrático. Há biscoitos, chocolate em pó, carnes enlatadas e calçados do Brasil; absorventes femininos da Colômbia; roupas da China; cremes hidratantes da Itália; óleo vegetal da Argentina; maçãs do Chile; e até feijão preto e produtos farmacêuticos dos EUA - por alguma triangulação que escapa ao embargo.

Os preços dos importados não diferem muito dos do Brasil: um pacote de 200 gramas de biscoito brasileiro custa 0,65 peso conversível, ou CUC (R$ 1,75); uma calça jeans chinesa, 23 CUCs (R$ 62,10). São os produtos fabricados em Cuba que têm preços acima do normal: 400 ml de xampu custam 3,45 CUCs (R$ 9,31); uma lata de Tu Kola, imitação da Coca-Cola, 0,55 CUC (R$ 1,48); uma lata de cerveja Bucanero, 1 CUC (R$ 2,70).

As prateleiras estão cheias; o que falta são consumidores.

Novos automóveis Peugeot, Renault e Volkswagen - cuja compra, curiosamente, tem de ser autorizada pelo gabinete do vice-presidente Carlos Lage - convivem nas ruas com as clássicas “banheiras” americanas dos anos 50 e os antiquados Ladas e Muscovis russos.

Os “camelos”, terríveis vagões montados sobre chassis de caminhões que transportam gente, e os ônibus escolares americanos amarelos, que vieram via Canadá, concorrem com coletivos da marca brasileira Busscar, montados em Havana.

No pacote da “Revolução Energética”, o governo subsidia a troca dos velhos eletrodomésticos soviéticos por modernos aparelhos fabricados na China, muito mais econômicos, ao preço total de apenas US$ 100 por família, financiados em 20 anos.

As grandes companhias petrolíferas do mundo, exceto as americanas, estão prospectando jazidas cubanas.

O ministro da Economia e do Planejamento, José Luis Rodríguez, previu para este ano aumento de 17,7% nas exportações de bens e serviços. E um crescimento da economia da ordem de 10%. Esse crescimento, que em 2005 já foi de 11,8%, segundo o ministro, é impulsionado pela exportação de serviços e pela centralização do câmbio, que permitiu ao governo desvalorizar o dólar em 20% em relação ao peso conversível e aumentar os salários.

Se produzisse mais, Cuba exportaria mais. O problema da economia cubana não é o embargo americano, como quer a propaganda do regime. É renda. O país gera muito pouca riqueza. Todo dia parece domingo, com pouco movimento nas ruas e muitos desocupados olhando o tempo passar.

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