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Reformas
de Raúl ficaram na promessa |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
4 de janeiro de 2009
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HAVANA A reputação
de modernizador de Raúl foi confirmada por um discurso que ele
proferiu no dia 26 de julho de 2007, no 54º aniversário do
assalto ao Quartel de La Moncada, que marcou o início da luta armada.
"Somos conscientes de que em meio às extremas dificuldades
objetivas que enfrentamos, o salário ainda é claramente
insuficiente para satisfazer todas as necessidades", reconheceu Raúl,
numa prova rara de contato de um dirigente cubano com a realidade. Em
seguida, ele tocou em dois pontos sensíveis da Revolução,
acenando com reformas estruturais. "Estamos diante
do imperativo de fazer a terra produzir mais. Para alcançar esse
objetivo, será preciso introduzir as mudanças estruturais
e de conceitos que resultarem necessárias", declarou o então
presidente interino, oficializado no cargo em fevereiro deste ano. "Igualmente
se requer, sempre que for racional, recuperar a produção
industrial nacional e incorporar novas regras. Nesse sentido, estudamos
o incremento do investimento estrangeiro, sempre que aporte capital, tecnologia
ou mercado." Desse discurso para
cá, disseram ao Estado dois economistas, que preferiram
não ser identificados para evitar represálias, a única
mudança palpável foi uma tímida liberalização
da propriedade da terra, que permite aos agricultores arrendarem-na por
períodos determinados, sem direito de passá-la de herança
para os filhos. "Que agricultor vai querer investir todos os seus
recursos e sua saúde, nessas condições?", pergunta
um especialista em economia agrícola. Em Cuba, 90% das terras pertencem
ao Estado. Do restante, cerca de 5% são de cooperativas e os outros
5% estão nas mãos de indivíduos. Esses 10% não-estatais
respondem por 60% da produção agrícola do país.
Quanto à atração de investimentos estrangeiros, nada
de notável foi feito até aqui. No início do
ano, depois da confirmação de Raúl no cargo de presidente,
duas medidas foram festejadas na imprensa como sinais de liberalização.
A posse de celulares pelos cidadãos comuns, antes proibida, foi
autorizada. Como acontece com a maioria das proibições em
Cuba, essa também era violada, e cerca de 110 mil cubanos tinham
linhas no nome de estrangeiros. Com a liberação, outros
130 mil cubanos adquiriram linhas, ao preço, proibitivo para a
maioria, de US$ 62,50. O minuto, tanto para receber quanto fazer chamadas,
custa cerca de US$ 0,50. O salário médio em Cuba é
de US$ 20. De qualquer maneira, é um avanço. "É
importante, porque quando se começa a abrir, é um caminho
sem volta", analisa um sociólogo. "As pessoas perguntam:
'Se ele tem, por que eu não posso ter?'" Antes, ter computador
em casa, mesmo desconectado da rede, sem autorização do
governo - que não a dá a cidadãos comuns - era crime.
As pessoas montavam máquinas com peças contrabandeadas.
Agora, computadores de fabricação chinesa estão à
venda legalmente. Mas pessoas comuns
continuam não podendo ter internet em casa. Com a facilidade de
ter computador, no entanto, proliferaram as conexões discadas clandestinas
- vendidas por gerentes de informática de empresas estatais e estrangeiras,
autorizadas a ter internet. Mas os preços seguem sendo o gargalo.
Para pessoas com autorização de ter internet em casa, como
correspondentes de jornais estrangeiros, um pacote de 80 horas por mês
custa US$ 75; a conexão ilimitada, US$ 625. Antes,
os hotéis ofereciam internet só nos business centers. Agora,
há também conexão sem fio, aos preços exorbitantes
de US$ 7,50 a US$ 10 a hora. Confinados a salários que não são suficientes para a sua sobrevivência, muitos cubanos suplementam seus rendimentos e ao mesmo tempo se abastecem no vasto mercado paralelo de produtos contrabandeados das fazendas e dos portos ou roubados das lojas e fábricas estatais. Também têm
trabalhos informais, táxis clandestinos ou aceitam propinas para
passar na frente pacientes e clientes no serviço público.
No seu discurso de encerramento dos trabalhos do Parlamento, no dia 27,
Raúl disse uma frase que produziu calafrios nesses cubanos: "Deve
ficar claro que não haverá retrocessos no propósito
de fortalecer a institucionalidade, a disciplina e a ordem em todas as
esferas do país, sem as quais simplesmente não se pode avançar." Todos esses sinais
levam muitos cubanos a se perguntar se foram eles que se enganaram a respeito
de Raúl, ou se seu ímpeto reformador está sendo contido
por forças acima ou ao redor dele. Para
isso também o discurso do dia 27 parece dar uma resposta. Pela
primeira vez, Raúl falou na primeira pessoa: "Durante muitos
anos tenho meditado sobre essas questões. Cheguei à conclusão
de que um dos nossos problemas fundamentais é a falta de exigência
sistemática em todos os níveis. É muito comum a violação
de regulações oficiais e de leis da República, e
não acontece nada." Aos 77 anos, Raúl parece disposto
a deixar a sua marca. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |