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Com
capuz de ninja, Gutiérrez foge para o exílio em camburão |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Segunda-feira,
25 de abril de 2005
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QUITO A não ser por
uma equipe da TV equatoriana, a rua estava deserta. O pequeno comboio
seguiu para a base aérea de Quito, contígua ao aeroporto
Mariscal Sucre, fortemente guardada pelos militares. Lá, eram esperados
pela mulher de Gutiérrez, a deputada Ximena Bohórquez, e
as duas filhas do casal, Viviana, de 15 anos, e Karina Ximena, de 20.
O grupo embarcou num
helicóptero da Força Aérea equatoriana, para um vôo
de 40 minutos, até a base de La Tacunga, a cerca de 80 quilômetros
de Quito, onde a presença militar já era bem menor. A mais
emocionada era Karina, que chorava, abraçava e beijava o pai. Cadete
do Exército, Karina, incentivada pelos seus instrutores e colegas
na Escola Militar, tomara a difícil decisão de ficar e seguir
a vida sozinha no Equador. Gutiérrez chegou a consultar Florencio
sobre o que ele achava disso. O embaixador, que tem quatro filhos homens,
espalhados por Londres, São Paulo, Rio e Brasília, aconselhou
o amigo a respeitar o desejo da filha. O avião da
Força Aérea Brasileira pousou às 5h35 - cinco minutos
depois do previsto. O amanhecer tingia de rosa o pico nevado do Cotopoxí.
Gutiérrez, destituído pelo Congresso na quarta-feira, e
desde então asilado na residência do embaixador, despediu-se
de Florencio, agradecido. Os três caminharam pela pista, levando
duas malas (ao voltar, Florencio perceberia que uma terceira mala tinha
sido esquecida). O Sucatinha, o antigo avião presidencial, decolou
às 5h55 (7h55 em Brasília). O embaixador suspirou,
aliviado. Chegavam ao fim 87 horas de tensão, desde que recebera
o telefonema de Gutiérrez, por volta das 15h de quarta-feira, pedindo
asilo diplomático. Carina voltou chorando, ao lado do embaixador,
no helicóptero, que, por razões de segurança, pousou
noutra base militar, próximo de Quito. Seguiram de carro para a
residência. Carina, exausta, dormiu no ombro de Florencio. E voltou
para a casa de parentes, onde estivera com a mãe e a irmã
desde a destituição do pai. A longa fuga do coronel
começou no fim da manhã de quarta-feira, depois de um telefonema
do comando das Forças Armadas avisando que não o apoiavam
mais, diante da onda de protestos que culminou numa manifestação
de 100 mil pessoas em Quito, na noite da véspera, e depois de uma
visita da embaixadora americana, Kristie Kenney, com um recado equivalente.
Segundo fontes próximas ao ex-presidente, Gutiérrez chorou
em seu gabinete. Ali se separou da
mulher e das filhas, que deixaram o Palácio Carondolet rumo à
casa dos parentes, enquanto o presidente embarcava às 13h num helicóptero
para o aeroporto de Quito. De lá, pretendia seguir numa avioneta
para Tena, sua cidade natal, na região amazônica, no nordeste
do Equador. Até aqui, Gutiérrez planejava permanecer no
país. Mas, segundo contaria mais tarde aos diplomatas brasileiros,
as condições meteorológicas não permitiram
o vôo. O helicóptero decolou mais uma vez. Quando manifestantes
romperam o alambrado e invadiram a pista, o presidente já não
estava mais ali. Ele voou para uma outra base militar perto de Quito,
de onde telefonou para Florencio, pedindo asilo. O ex-presidente chegou
por volta das 16h30 no porta-malas de um carro amarelo, acompanhado de
um segundo carro, ambos sem nenhuma insígnia. No caminho, telefonou
às 16h e às 16h15, para dizer onde estava, e às 16h25,
para pedir que abrissem os portões. Dentro do pátio, saiu
do porta-malas disfarçado com o uniforme de um time de futebol
local. A partir daí, permaneceria confinado por três dias
e meio na residência, onde dia e noite se aglomeraram manifestantes
chamando-o de "ladrão", "assassino", "covarde",
"maricón". Gutiérrez a
tudo ouvia, deprimido. Tentava se autoconsolar, dizendo que a vida era
assim mesmo. Falava muito ao celular, organizando os detalhes práticos
de sua fuga. Ximena lhe enviou mudas de roupa. O embaixador lhe emprestou
um pulôver azul marinho, que ele deixou no quarto que ocupou nesses
dias, uma suíte com duas camas de solteiro e uma mesa no meio,
com um rádio, pelo qual acompanhava o curso dos acontecimentos.
Uma pasta verde sobre uma outra mesa guarda as mensagens de apoio que
recebeu. "Os povo pobre está (sic) com você",
escreveu uma admiradora. "Foi um bom presidente para o povo pobre
do Equador, que está orando por ele", diz outra carta. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |