|
Gutiérrez:
nepotismo e amigos na Corte |
|
|
LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
24 de abril de 2005
|
|
QUITO Mas a irritação
já vinha de muito tempo. Gutiérrez era um nepotista metódico,
que faria Severino Cavalcanti parecer um iniciante. Seu irmão Gilmar,
deputado pelo Partido Sociedade Patriótica 21 de Janeiro, que Gutiérrez
fundou em homenagem ao golpe de 2000, estava a cargo dos negócios
com petróleo, dos quais teria, segundo denúncias, arrecadado
maciçamente. A irmã, Janete,
era sua secretária pessoal, a um salário de US$ 6 mil. O
cunhado, Napoleón Villa, foi candidato a governador da província
de Pichincha (onde fica Quito), tendo a seu dispor helicóptero
e outras facilidades fornecidos pelo governo, mas nem assim se elegeu.
Depois, Gutiérrez quis colocá-lo no Tribunal Andino, mas
foi recusado, por falta de qualificação. Villa tinha outra
chave de cofre: cuidava do Fundo de Solidariedade. O filho de seu primo-irmão
Renán Borbúa, que não tem diploma nem de segundo
grau, tornou-se agregado da embaixada em Washington, com um polpudo salário.
A lista é grande. Outros temas estão
vinculados a um forte antiamericanismo entre os equatorianos. Entre eles
o uso da base de Manta, no litoral norte do país, pelos militares
americanos engajados no combate à guerrilha e ao narcotráfico
na Colômbia. "Estão nos metendo numa guerra que não
nos corresponde", diz o empresário Jorge Escobar. O novo governo
do presidente Alfredo Palacio, que foi vice de Gutiérrez mas rompeu
com ele, estuda pedir a saída dos americanos de Manta, assim como
suspendeu a participação do Equador nas negociações
envolvendo a Colômbia e o Peru para um Tratado de Livre Comércio
com os Estados Unidos. A adesão incondicional
do governo Gutiérrez à chamada receita neoliberal do Fundo
Monetário Internacional exaspera os mais esquerdistas. Um fundo
de excedentes da exportação de petróleo, acima da
previsão conservadora do Orçamento, era destinado à
geração de superávit primário e ao pagamento
da dívida. A primeira medida do novo ministro da Economia, Rafael
Correa, empossado na quinta-feira, foi de canalizar esses recursos, da
ordem de US$ 400 milhões, para gastos correntes. Correa, que promete
"resgatar a soberania" do país, é contrário
até mesmo à dolarização, embora admita que
ela seja irreversível. Introduzida pelo ex-presidente Jamil Mahuad
e estopim de sua queda, em janeiro de 2000, a dolarização
pôs fim a uma espiral de hiperinflação e transformou
a pequena economia equatoriana num laboratório. "A situação
piorou", avalia a fisioterapeuta Norma Eredia. "Os serviços
subiram muito, e não pudemos aumentar nossa renda." Norma
cobra US$ 10 por sessão. Nos meses em que ia bem, tirava US$ 400.
Nos últimos sete ou oito meses, tem ganhado menos de US$ 200. É
o preço do aluguel de um apartamento pequeno em Quito. Ela diz
que várias academias de ginástica, nas quais buscava clientes,
fecharam as portas. Antes, Norma, o marido e os dois filhos comiam ceviche
de camarão a cada três semanas. Agora, quando muito, saboreiam
a iguaria andina a cada quatro, cinco meses. A arquiteta Beatriz
Andrade, de 40 anos, não pode fazer chamadas com seu celular. "Não
tenho US$ 30 para comprar créditos", conta Beatriz, que está
sem trabalho há um ano. O marido, também arquiteto, sustenta
a mulher e os dois filhos. "Essa dolarização foi uma
embromação", diz Beatriz. "Por que outros países
não fizeram isso, só nós, que somos pobres?",
pergunta ela. "É lógico que isso é uma componente
da insatisfação popular", analisa Norma, a fisioterapeuta. Para os que não
ficaram sem trabalho, como o advogado Cristof Baer, de 39 anos, "a
dolarização trouxe estabilidade, apesar que o poder de compra
diminuiu". Segundo o jornalista Diego Cornejo, vice-diretor do jornal
Hoy, a classe média, que foi quem saiu às ruas, "tem
tirado proveito da dolarização", e sua motivação
"não foi econômica, mas doutrinária, em favor
da institucionalidade" do país. "Gutiérrez desinstitucionalizou
o Equador", diz Cornejo. A mensagem da classe média equatoriana
está resumida numa frase do empresário Cesar Vallejo, de
54 anos, o olho direito roxo de um golpe da polícia nas manifestações:
"Não somos tontos." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |
|