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Asilo
não causará hostilidade ao Brasil, diz embaixador |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Sexta-feira,
22 de abril de 2005
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QUITO "Estamos continuando
as conversações, que ainda não chegaram a um termo",
disse o embaixador, visivelmente abatido. "Essas coisas não
se resolvem tão rapidamente como algumas pessoas gostariam."
Antes da reunião, Florencio havia dito a jornalistas brasileiros
que trabalhava com um "horizonte" de tempo entre anteontem e
ontem para a concessão do salvo-conduto. O novo ministro de Governo (equivalente ao chefe da Casa Civil), Mauricio Gándara, admitiu que, pela Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático (1954), o Equador estaria obrigado a permitir a saída a são e salvo de Gutiérrez, uma vez que ele obteve o asilo diplomático do Brasil. Já o chanceler Antonio Parra Gil ponderou que pesa uma investigação criminal contra o ex-presidente, aberta pela procuradora-geral interina, Cecilia Armas, que o responsabiliza pela morte de um fotógrafo chileno e ferimentos em dezenas de manifestantes. "É preciso estudar isso com a melhor boa vontade", argumentou o novo chanceler. "Vamos tomar todo o tempo necessário." Gutiérrez está
refugiado na residência do embaixador desde a tarde de quarta-feira,
quando foi destituído pelo Congresso, depois de uma semana de manifestações
em Quito que deixaram dois mortos. Além das denúncias de
corrupção e nepotismo, Gutiérrez é acusado
de violar a Constituição, por ter dissolvido a Corte Suprema.
Sua mulher, a deputada Ximena Bohórquez, e suas duas filhas, de
15 e de 20 anos, também foram beneficiadas pelo asilo, e aguardam
em casa para embarcar com o ex-presidente para o Brasil. O clima é desfavorável para a concessão do salvo-conduto. Os equatorianos já assistiram a dois presidentes fugindo do país depois de serem derrubados em meio a convulsões sociais: Abdalá Bucaram, em 1997, e Jamil Mahuad, em 2000. Não querem ver a história repetir-se. A residência do embaixador brasileiro, uma construção colonial no bairro de classe média alta de La Floresta, continuava ontem vigiada por cerca de cem manifestantes, dispostos a impedir fisicamente a saída de Gutiérrez. Pela manhã, o empresário Cesar Vallejo estacionou o seu Mercedes-Benz diante do portão da residência do embaixador. Era uma resposta a uma declaração de Gutiérrez, que, no início das manifestações, no dia 13, dissera que um grupo de "foragidos de Mercedes-Benz e BMW" tinha ido perturbar a tranqüilidade de sua família, em frente a sua casa. "Vim buscar esse foragido para levar para a cadeia", explicou. Vallejo, 54 anos, trabalha com comércio exterior, inclusive com o Brasil, e não acredita que a concessão do asilo vá atrapalhar as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países. "O Brasil não tem nada a ver com isso, como país, como economia", disse o empresário. "Logicamente o Brasil não tinha como lhe negar o pedido." Nem todos demonstram
tanta compreensão. "Gutiérrez era um bom cliente do
Brasil", diz Hugo Becerra, de 67 anos, aposentado pelo Ministério
das Finanças. "Foi por isso que lhe concederam o asilo",
afirma ele, citando contratos com a Petrobrás e com empreiteiras
brasileiras. "É uma vergonha que um governo que se diz progressista
como o de Lula dê asilo a um sem-vergonha, traidor, corrupto e antidemocrático",
indigna-se Mario Ramos, historiador do Centro Andino de Estudos Estratégicos.
"É a antítese do que defende o Partido dos Trabalhadores."
Para o advogado Cristof
Baer, o governo brasileiro se precipitou. "O Brasil se colocou numa
situação muito difícil", disse Baer, de 39 anos.
"Agora fica difícil voltar atrás. Mas é o que
deveria fazer: reconsiderar sua decisão." O embaixador tomou
a decisão depois de conversar com "colegas" no Itamaraty,
mas sem consultar o chanceler Celso Amorim, por exemplo. A decisão
foi baseada na tradição brasileira de aceitar esse tipo
de pedido, na real ameaça à integridade física de
Gutiérrez, segundo sua avaliação, e no desejo de
contribuir para a redução das tensões. "Lucio não é um perseguido político", contestavam ontem os manifestantes. "Só queremos que ele responda na Justiça pelos crimes que cometeu." A professora aposentada Germania Escobar, de 64 anos, mandou um recado: "Peça ao presidente Lula que não permita a entrada desse criminoso." Um dos slogans mais freqüentes com que os manifestantes animam sua vigília na frente da residência é: "Lula, amigo, devolva-nos a mula." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |