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ETA
definhou ao perder 'santuário' na França |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quinta-feira,
6 de março de 2008
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MADRI A história
mostra que um país dificilmente consegue derrotar um grupo guerrilheiro
ou terrorista enquanto ele conta com a complacência ou o apoio ostensivo
de Estados vizinhos, como fazem a Venezuela e o Equador com as Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O exemplo cabal
é o progressivo definhamento do grupo separatista Pátria
Basca e Liberdade (ETA) depois que deixou de ter a França como
santuário. Quando a ETA surgiu,
em 1959, a Espanha estava sob a ditadura fascista do general Francisco
Franco (que durou de 1936 até sua morte, em 1975). Nesse período,
a França reconhecia como perseguidos políticos os militantes
da ETA, que usavam o território francês como santuário
e base para suas operações contra a Espanha. Empresários
bascos na Espanha extorquidos pela ETA tinham de atravessar a fronteira
e ir pagar as taxas cobradas pelos separatistas nos vilarejos do País
Basco francês. De forma semelhante, guerrilheiros colombianos utilizam
o lado venezuelano da fronteira para extorquir, seqüestrar e traficar
cocaína, sem serem molestados pelas autoridades, como mostrou o
Estado em reportagem publicada em dezembro (leia em: Velho
Oeste' do país lembra a Colômbia antes de Uribe). "Havia um pacto
silencioso, pelo qual o governo da França deixava a ETA atuar em
seu território, e em troca a ETA não alentava o nacionalismo
dos bascos franceses", disse ao Estado o editor-chefe da agência
de notícias Vasco Press, Florencio Domínguez, de Bilbao.
O País Basco francês, onde vivem ao redor de 200 mil pessoas,
faz parte da reivindicação histórica dos bascos por
um Estado unificado. No processo de democratização,
a Constituição de 1978 e o Estatuto da Autonomia, de 1979,
garantiram generosos direitos às comunidades da Espanha, como o
País Basco, a Catalunha e a Galícia. Os radicais se sentiram
ameaçados. Em reação, o fim dos anos 70 ficou conhecido
como "anos de chumbo", pelo intenso recrutamento de militantes
e pela onda de atentados mais sangrentos da história do movimento.
Entre 1958 e 1977, a ETA matou 75 pessoas; desde então, foram 800
mortos, contabiliza Domínguez. No governo de Giscard
D'Estaing (1974 a 1981), França e Espanha viveram às turras,
assim como ocorre hoje entre Venezuela e Colômbia. Os franceses
bloqueavam o ingresso dos espanhóis na Comunidade Européia
e havia conflitos comerciais em setores como pesca e agricultura. Os franceses
começaram a mudar de atitude no governo do presidente socialista
François Mitterrand (1981 a 1995). A gota d'água
foi o atentado da ETA contra o senador socialista espanhol Enrique Casas,
em fevereiro de 1984. Segundo Dominguez, os socialistas franceses se perguntaram:
"Como é possível que matem alguém como nós?" Mitterrand se engajou
na intermediação entre a ETA e o governo espanhol, um pouco
como fez Hugo Chávez entre agosto e dezembro do ano passado. Entretanto,
em setembro de 1984, a ETA esnobou o presidente francês, ao não
comparecer numa reunião por ele articulada em Bordéus com
um enviado do governo espanhol. No dia seguinte, o governo francês
extraditou para a Espanha quatro etarras. Entretanto, diz Domínguez,
nos primeiros anos, a colaboração da França foi "tímida":
os franceses resistiam a entregar os etarras à Espanha, e os deportavam
para terceiros países: Panamá, Venezuela, República
Dominicana, Equador e Togo. A colaboração
se intensificou a partir do governo de coabitação entre
Mitterrand e o primeiro-ministro Jacques Chirac, de centro-direita, formado
em 1986. A polícia francesa deu início a importantes operações
que levaram à prisão de muitos etarras, ao mesmo tempo em
que as condenações por suas atividades foram elevadas, na
França, de alguns meses de prisão para até dez anos.
Como a França tinha poucos policiais especializados em terrorismo
- um problema marginal para o país -, começou a fazer vista
grossa à entrada de investigadores espanhóis. Essa licença
levou à captura, em março de 1992, de toda a cúpula
da ETA - os chefes militar, político e de logística -, em
Bidart, no País Basco francês. Formaram-se duas equipes
mistas, uma com a Guarda Civil espanhola e o serviço de informações
francês, outra com a Polícia Nacional da Espanha e a Polícia
Judiciária (equivalente no Brasil à Polícia Civil)
da França. A polícia espanhola tem uma sede em Pau, capital
dos Pireneus Atlânticos, na França. Um juiz espanhol passou
a atuar em Paris e um francês em Madri. Acordo firmado entre os
dois países permite a extradição temporária
de etarras para a Espanha, onde são julgados, depois voltam à
França, cumprem sua pena, e vão de novo para a Espanha,
para cumprir a pena espanhola. No âmbito de um acordo de extradição
firmado pela União Européia, os processos duram meses, em
vez de anos. Diante da pressão
na França, os militantes da ETA se dispersaram pelo mundo, e o
grupo se desmobilizou e perdeu força. Hoje, tem cerca de 100 militantes
armados, depois de ter chegado a 500 no fim dos anos 70 e início
dos 80, estima Dominguez. "A ETA deixou
de ser um problema político, entre governos, e passou a ser um
problema técnico, entre policiais", conclui Dominguez. Para
que isso aconteça com as Farc, muita coisa tem de mudar na Venezuela
e no Equador. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |