|
O
drama dos brasileiros ilegais |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado,
8 de março de 2008
|
|
MADRI Alheios aos debates
acalorados na campanha eleitoral sobre a sua presença indesejada
no país, e à deportação em massa de seus compatriotas
no Aeroporto de Barajas em Madri, os imigrantes ilegais brasileiros seguem
a vida na Espanha, acalentando os dois sonhos que movem todo "indocumentado":
ganhar dinheiro e regularizar sua situação. "Vim como todo
brasileiro, com a esperança de ganhar dinheiro aqui", diz
a goiana Viviane Miranda de Moraes, que chegou à Espanha no dia
1.º de março de 2005, depois de se formar em letras (português
e inglês) em Goiânia. "Não valeu a pena de jeito
nenhum. O preço foi alto demais. Por tudo que passei aqui, não
voltaria nunca mais à Espanha." Pouco depois de chegar,
Viviane conta que ficou grávida do espanhol Manuel Prado Docampo,
dono de uma loja de carros em Ourense, a seis horas de Madri, onde trabalha
numa cafeteria. Ela foi ter o filho no Brasil e quando voltou seu namorado
estava com a irmã dela, que trabalha "em um clube", e
não quis reconhecer a paternidade. Viviane, de 32 anos, diz que
já provou a paternidade do filho, e está à espera
da sentença da Justiça. "Ele vai ter que colocar o
sobrenome no meu filho e pagar pensão e com isso vou me legalizar
na Espanha", espera Viviane, que reclama do custo de vida no país,
para uma mãe solteira: "Pago 600 euros para uma babá
brasileira tomar conta do meu filho, coisa que no Brasil a gente paga
R$ 200 e a pessoa fica contente. Aqui, todo mundo explora todo mundo." Viviane sabe que suas
agruras são um caso excepcional: "Minha irmã, que não
tem filho, já comprou casa e carro no Brasil." Mas diz que
os imigrantes sofrem muito pela distância da família. Ela
está voltando pela terceira vez ao Brasil. Não sabe das
deportações em massa de brasileiros, mas não se assusta:
"Se está dentro da lei, o turista não tem problema
para entrar", garante Viviane, enumerando, de cor, as exigências
da polícia de imigração: "800 euros, cartão
de turista, reserva de hotel. É a lei. Eles não podem fazer
nada." Mineiro de Ipatinga,
Eliel Carlos da Silva também vive a esperança de regularizar
sua situação na Espanha. O dono da empresa onde ele trabalha
como soldador já concordou em dar início aos trâmites
para o contrato, que abre caminho para um pedido de residência.
O patrão também concordou em convidar sua mulher para vir
trabalhar com limpeza na sua firma. Assim, ele tenta preparar os papéis
para a vinda da mulher e dos três filhos, que não vê
há três anos, desde que chegou à Espanha. Eliel conta que, com o salário de 800 a 900 euros, não dá para guardar dinheiro. Só o aluguel do apartamento custa 600 euros, que ele divide com outras três pessoas. "Sempre pagam pouco a quem não tem papéis. Querem tirar proveito", diz ele. "Aqui, a vida é de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Se sair para uma gandaia, já aperta", sorri Eliel, de 29 anos. "Tem que ralar mesmo." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |