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Aliviada,
New Orleans busca novo recomeço |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Quarta-feira,
3 de setembro de 2008
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NEW ORLEANS As ruas de New Orleans
estão desertas de novo, a não ser pelos policiais e pelos
soldados do Exército, que circulam em jipes Humvee. As calçadas
estão cobertas de sacos de lixo não recolhidos, detritos
de janelas estilhaçadas - as poucas que não foram seladas
com tábuas de madeira antes de os moradores partirem em massa -,
lascas de troncos e palmas arrancadas das árvores pelo vento de
170 quilômetros por hora. Sobre as calçadas também
há colares de contas coloridas, típicas do Mardi Gras, numa
mensagem silenciosa dos moradores antes de partir, de que o espírito
de New Orleans sobreviveria ao Gustav. Mas ninguém
acreditou tanto nisso quanto Eric Coaen e Adam Spigleman, os donos da
lanchonete Mr Chubby's Cheesesteaks, na Bourbon Street - o único
ponto comercial aberto em toda a cidade. "Não fechamos desde
sexta-feira", orgulha-se Barry Coaen, pai de Eric, cujo melhor amigo
é casado com uma economista brasileira e vive em Nova York. "Não
quisemos ir embora porque a polícia, a Guarda Nacional e o Exército
não teriam outro lugar para comer", explica Barry, apontando
para os homens de farda, alguns armados com fuzis, que enchem a lanchonete. Barry diz que tiveram
sorte porque a eletricidade não foi cortada na lanchonete, ao contrário
de praticamente toda a cidade. "A tempestade teve que passar nós,
e ficou com medo." A lanchonete serve sanduíches, sucos e
daiquiris, entre eles uma mistura de frutas chamada Furacão - uma
piada da época do Katrina. Em um cartaz na calçada da lanchonete
eles escreveram: "Nunca se renda. Nós não vamos a lugar
nenhum. Defenda até o fim." Por ordem da prefeitura, todos
os hotéis estão fechados, com exceção de um
Marriott, que abriga os jornalistas. Traumatizado com os
saques ocorridos em 2005, o prefeito de New Orleans, Ray Nigar, mantém
a cidade sob toque de recolher. Qualquer pessoa que sair na rua pode ser
presa. Os acessos à cidade também estão fechados.
Só equipes de emergência, como técnicos da companhia
de eletricidade Entergy e soldados do Corpo de Engenharia do Exército,
encarregados de desbloquear as vias, além de jornalistas, podem
passar pelos bloqueios erguidos nas estradas pela polícia. "Você
é um bom repórter?", perguntou sorrindo um policial,
antes de liberar a entrada do Estado. Moradores de New Orleans
e outras cidades com acesso bloqueado fazem filas na estrada, sem poder
voltar para casa. "Não devíamos ter saído de
nossas casas", arrependem-se dois homens num posto de gasolina a
80 quilômetros de New Orleans. "Você é jornalista?
Leve-nos conosco!" Para o professor de
tênis Mark Harner, de 56 anos, tudo não passa de encenação.
À pergunta sobre por que não obedeceu à ordem do
governo de retirada obrigatória, seguida por 2 milhões de
pessoas na Costa da Louisiana (estima-se que 100 mil ficaram), Harner
responde: "Enfrentei o Katrina e sabia que o Gustav era uma embromação
política." Harner, que também tem um amigo tenista
no Brasil, explica: "Sou republicano, mas não aceito enganação.
A dois meses da eleição, eles fizeram o Gustav parecer muito
mais perigoso do que realmente era, para mostrar como a Louisiana resiste
bem a um furacão." Para provar sua tese, Harner volta-se para a mesa ao lado e pergunta a um policial: "Quantas pessoas foram presas?" Ele responde que apenas duas. "Viu só?", diz Harner, vitorioso. "Quase não há negros aqui. Antes do furacão eles retiraram todos os negros, que são os que cometem crimes. E agora fazem esse
show patrulhando as ruas, sabendo que nada vai acontecer." Já o músico
Kurt Brunus, como quase todo mundo, obedeceu à ordem de retirada,
e estava ontem com a família em Atlanta, Geórgia. "Estou
contente de ter saído, mas agora quero voltar para casa",
disse Brunus, pelo telefone, confirmando que sua banda, Kurt Brunus Project,
apresenta-se no dia 14 de outubro na casa de espetáculos Bourbon
Street, em São Paulo. Mas o músico reconhece que, desde
o Katrina, New Orleans já não é a mesma. "Muitos
músicos não voltaram, e a cidade não recebe mais
tantos visitantes." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |