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Brasileiros
vivem o fim do sonho americano |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
19 de outubro de 2008
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NOVA YORK "Não está
mais compensando", diz o piauiense de 50 anos. "Trabalho aqui
não se acha nem na construção. Antes, tinha muito."
Muitos brasileiros que trabalhavam na construção civil voltaram
para o Brasil depois que a crise, originada no setor imobiliário,
paralisou o segmento. O número de alvarás para construções
residenciais solicitados em setembro, 817 mil, foi o menor desde janeiro
de 1991. Num sinal da mudança
de percepção em relação aos Estados Unidos
- que por gerações exerceu enorme magnetismo sobre brasileiros
em busca de uma vida melhor -, Washington conta que, antes de a crise
se agravar, arrumou emprego num restaurante para Tiago em Nova York, mas
o rapaz não quis vir: preferiu ficar para prestar vestibular para
informática, diz o pai, que estudou até a oitava série. O cozinheiro não
se arrepende de ter emigrado. Ele ganha US$ 760 por semana, trabalhando
de segunda a sábado das 7 horas às 19h e nos domingos até
as 13h. Pagando apenas US$ 50 por um quarto no apartamento de um cubano,
com vista para a Times Square, cartão-postal nova-iorquino, ele
fez formidável pé-de-meia. Depois de uma primeira estada
em Nova York, de dois anos e meio, ele construiu sua casa em São
Vicente, com R$ 30 mil. Nos últimos sete anos, em que pegou o dólar
a R$ 3 e até a R$ 4, juntou R$ 100 mil e investiu numa fazenda
de engorda de boi e numa granja em Várzea Grande (PI), sua cidade
natal. O negócio, tocado pela irmã, rende-lhe R$ 6 mil líquidos
por mês. "Ganho o mesmo aqui que lá", contabiliza.
Ele tem 50 cabeças de gado de corte e 15 mil frangos. "Abasteço
quatro cidades da região." "No Brasil é
bom, porque a mão-de-obra é barata", explica. "Pago
R$ 400 para um empregado por 30 dias", admira-se, habituado ao salário
semanal nos EUA. "Aqui é bom porque o salário é
alto, mas, com o dólar fraco, é problema." O agravamento da crise
- que leva os investidores a vender ações e aplicar em dólares
- fortaleceu a moeda americana frente ao real. O dólar fechou a
R$ 2,11 na sexta-feira. Mas já esteve em R$ 1,50, obrigando os
brasileiros a enviar mais dólares para suas famílias. Agora
que a cotação melhorou, faltam empregos e os salários
estão mais baixos. Na lojinha de presentes
Búzios, da baiana Marcela Ramos, também na Rua 46 (batizada
de Little Brazil), as vendas caíram 10% em relação
ao verão passado. Sua freguesia é composta de 60% de brasileiros
e 40% de americanos - que também estão consumindo menos.
"Tem mais lugares vazios para alugar e mais pessoas fechando seus
negócios", observa Marcela, de 27 anos, há 9 nos EUA.
"Conseguir trabalho
não está fácil", atesta a capixaba Alessandra
Marques, de 31 anos, que fez administração na Universidade
Estadual de New Jersey. Ela trabalha meio período numa clínica
de beleza e ganha US$ 400 por semana. Antes da crise, a clínica
faturava de US$ 10 mil a US$ 15 mil por mês. Hoje, fatura US$ 4,5
mil. Antes, 40% das clientes eram brasileiras. Elas desapareceram. "Nosso
ramo não é de primeira necessidade. É a primeira
despesa que as pessoas cortam." Seu marido, o americano
Frank Chavarrie, de 47 anos, ganhava US$ 125 mil por ano na empresa de
processamento de dados ADP, que tinha muitos clientes no World Trade Center.
Depois do atentado de 11 de setembro de 2001, foi demitido. Hoje, ganha
menos da metade - US$ 54 mil - no banco suíço UBS. Em crise,
o banco ofereceu um plano de demissão voluntária com um
ano e meio de salário e informou que aqueles que quiserem continuar
na empresa não receberão indenização em caso
de demissão. Depois de 10 anos nos EUA, Alessandra está
voltando para Vila Velha (ES), com os dois filhos, de 9 e de 5 anos. De um lado, diminuem
os salários e as chances de emprego; de outro, aumentam os gastos
domésticos - a começar pelas prestações da
casa própria. Os juros anuais do financiamento de 30 anos do apartamento
de dois quartos de Alessandra subiram de 3,56% para 7,75%, e as prestações
mensais, de US$ 1.095 para US$ 1.319. Quando o adquiriu, em 2002, o apartamento
valia US$ 73 mil; no ano passado, no auge da bolha imobiliária,
seu preço saltara para US$ 295 mil. Agora, vale US$ 215 mil. Ela
pretende alugá-lo por US$ 1.800, e espera que dê para cobrir
a prestação e as taxas, que são mais de US$ 400. Ao lado das hipotecas,
subiu também o preço de alimentos e gasolina - os itens
que têm puxado a inflação nos EUA. O curitibano Jean
Frison, gerente da Churrascaria Plataforma, sabe os índices de
cor: de janeiro de 2007 para cá, a carne e o arroz aumentaram 30%;
o leite, 35%; e a lata de 18,9 litros de óleo de milho de cozinha
dobrou de US$ 35 para US$ 70. Antes, o arroz era servido em todas as mesas.
Agora, só se o cliente pedir. Os fornecedores passaram a cobrar
entre US$ 5 e US$ 30 de frete (antes incluído), por causa do aumento
da gasolina. Mesmo assim, a churrascaria só aumentou o preço
do rodízio de US$ 51,95 para US$ 55,95. "Se repassássemos
mais, ficaríamos sem clientes", explica. O movimento diminuiu
de segunda a quinta-feira, com a perda de clientes que trabalham no mercado
financeiro, atingido em cheio pela crise. Calcula-se que eles representam
5% dos trabalhadores de Nova York, mas respondem por cerca de 25% da receita
da cidade. O paulistano João
de Matos, dono da Plataforma, perde numa ponta mas ganha noutra. Seu negócio
principal é a agência de viagens BACC, com seis filiais nos
EUA e faturamento anual de US$ 100 milhões. Ele vende 50 mil passagens
por ano para o Brasil. Muitos estão comprando bilhetes só
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