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PARIS
Solidamente ancorada
no Estado de Bem-Estar Social e em direitos adquiridos protegidos por
poderosos sindicatos, a França se lança, com Nicolas Sarkozy,
na trilha de um capitalismo mais liberal. Não se esperam mudanças
bruscas. Mas o Estado deve diminuir de tamanho e as leis trabalhistas,
ser flexibilizadas.
Sarkozy repetiu várias vezes que o Estado francês está
inchado e que, no seu governo, a cada dois funcionários que se
aposentarem, apenas um será reposto. Ele quer também mudar
a lei de greve, para obrigar os trabalhadores nos transportes, por exemplo,
a manterem os serviços nos horários de pico.
O presidente eleito também pretende diminuir a rigidez da jornada
de 35 horas semanais, incentivando, com isenção fiscal,
a sua ampliação para 39 horas, que, segundo seus cálculos,
proporcionaria ao trabalhador um rendimento extra de 25%. Com isso, pretende
aumentar o poder aquisitivo e impulsionar o crescimento econômico.
A jornada média, na Europa, é de 41 horas semanais, segundo
Philippe Aghion, da Escola de Economia de Paris.
Sarkozy disse também que vai reformar a previdência, acabando
com regimes especiais para corporações que se aposentam
com 37 anos e meio de contribuição, sob pretexto de periculosidade
e trabalho penoso, quando os demais trabalhadores têm de cumprir
40 anos. "Isso é um escândalo, num país que inclui
a palavra 'igualdade' entre os seus lemas", disse ele no debate de
quarta-feira com a socialista Ségolène Royal.
Um dos principais slogans da sua campanha foi "décomplexer
la droite", ou seja, livrar a direita francesa dos complexos de culpa
que ela carrega, com o peso da tradição nacionalista e social
do gaullismo. Em seu livro Ensemble (Junto), publicado este ano,
Sarkozy faz uma profissão de fé: "Creio no capitalismo,
que venceu o feudalismo, o fascismo e o comunismo, que pôs fim à
penúria e que é a civilização material do
Ocidente desde o século 14."
"Estou convencido de que há uma moral do capitalismo, que
é uma moral da responsabilidade e do mérito", prossegue
Sarkozy, "que o capitalismo está condenado se a remuneração
de cada um não tem relação com a riqueza que ele
cria."
Ex-ministro da Economia e do Interior no atual governo, Sarkozy disse
que vai propor aos demais países da União Européia
(UE) a desvalorização do euro, cuja apreciação,
segundo ele, tem diminuído a competitividade e contribuído
para o desemprego.
Os especialistas consideram isso improvável. "O presidente
francês não tem poder algum sobre o euro, cujo nível
é fixado pelos mercados de câmbio a partir de decisões
do Banco Central Europeu, uma instituição independente",
disse ao Estado Jean-Luc Biacabe, economista da Câmara de Comércio
e Indústria de Paris.
"Em contrapartida, ele pode militar por um reforço do peso
político da Europa, com uma reforma constitucional que permita
ter um verdadeiro governo econômico da zona do euro", disse
Biacabe. "Mas isso suporia também que os governos nacionais
europeus aceitem transferir ao nível europeu parte de seus poderes."
Ainda no âmbito europeu, o presidente eleito se declarou contrário
ao ingresso da Turquia na UE.
Especialistas e diplomatas ouvidos pelo Estado disseram que, no
fundo, Sarkozy gostaria de uma maior adesão da França à
política externa americana, mas dificilmente colocará isso
em prática. A independência da política externa da
França, que se opôs, por exemplo, à invasão
do Iraque, é considerada um interesse perene do Estado, mais que
uma decisão de governo.
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