Ségolène surpreende e põe Sarkozy na defensiva durante debate na TV
Atrás nas pesquisas, socialista parte para ataque com duras críticas ao atual governo, do partido de seu rival

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Quinta-feira, 3 de maio de 2007

PARIS

No primeiro debate presidencial em 12 anos na França, a candidata socialista Ségolène Royal avançou sobre o adversário, o direitista Nicolas Sarkozy, com uma ferocidade inesperada. Ao final do debate de 2h40, que foi esquentando até atingir o ponto de ebulição, Ségolène acusou Sarkozy de “imoralidade” por causa de sua posição em relação ao ensino para crianças com necessidades especiais.

“A senhora tem a visão sectária da esquerda, de que todo mundo que tem opinião diferente da sua é imoral”, reagiu Sarkozy, depois de alguns instantes de perplexidade. “Quem usa palavras que ferem divide o seu povo.” Foi o desfecho de um crescendo, no qual Sarkozy e Ségolène percorreram dezenas de temas, do desemprego à energia nuclear, e discordaram sobre praticamente tudo, numa discussão marcada pela divisão ideológica clássica entre direita e esquerda.

O momento de maior tensão do debate ocorreu depois que Sarkozy, ex-ministro da Economia e do Interior do atual governo, observou que na França só 40% das crianças com necessidades especiais estudam em escolas normais. Ele planeja elevar esse índice a 100%, como ocorre no resto da Europa. “Estou escandalizada com o que estou ouvindo”, interrompeu Ségolène - o que as regras do debate permitiam. “Criei 7 mil cargos de auxiliares de integração (para deficientes em escolas normais), e seu governo os suprimiu”, acusou a candidata, que foi ministra de Ensino Escolar (1997-2000). “A senhora sai de si facilmente”, advertiu Sarkozy. “A responsabilidade de um presidente é muito pesada.”

Havia expectativa sobre como Ségolène, 7 pontos atrás de Sarkozy nas pesquisas, se portaria diante do adversário, conhecido pela língua afiada, ao passo que a socialista costuma ser mais suave e teórica. Após alguns instantes iniciais de nervosismo, em que falava consultando anotações, Ségolène ganhou segurança. Aos 15 minutos, começou a interromper Sarkozy, e não parou mais, deixando-o na defensiva e evitando que ele concluísse seus raciocínios. “Madame Royal, deixe-me responder”, pedia Sarkozy.

O candidato tentava conter a enxurrada de críticas de Ségolène ao governo do atual presidente Jacques Chirac e primeiro-ministro Dominique de Villepin, ambos de seu partido, exclamando: “É falso.” Já a socialista procurou dissipar a imagem de que suas posições são ideológicas e vagas, enquanto o direitista é concreto e pragmático. “Sou a presidente do que funciona”, insistiu. Mas não conseguiu evitar responder a perguntas de Sarkozy com a frase: “Isso será negociado entre os setores.” Ao fim, ficou a confirmação de que a França está diante de duas escolhas profundamente diferentes.

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