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Georgianos se dividem
sobre culpados pela guerra |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Terça-feira,
12 de agosto de 2008
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TIBILISI No meio da tarde de
segunda-feira, o tenente da polícia Kebadze Giorgi relaxa com seu
pai e sua filha de um ano e três meses na Praça Rosa, no
centro de Tbilisi, a capital da Geórgia. De bermuda e sandálias,
Giorgi, 27 anos, aproveita um descanso merecido: ele voltou na véspera
do inferno. O policial estava a serviço em Gori, 60 km a oeste
da capital, destruída por bombardeios russos. "Parece que
explodiu uma bomba atômica lá", compara Giorgi. "Está
tudo em ruínas." O Estado pergunta
a Giorgi de quem é a culpa pelas mortes e destruição
dos últimos dias. Ele responde com uma pergunta: "Devo dizer
a verdade?" O policial lembra que foi o governo georgiano quem começou
o ataque e desafiou os russos. "Podem até dizer outras coisas
na TV, mas esse é o fato", diz Giorgi. "Deviam ter previsto
a reação dos russos, mas não imaginaram que eles
apoiariam tão abertamente os separatistas. Até aqui, o apoio
era bem mais indireto." Giorgi exprime a frustração
de muitos integrantes das forças de segurança georgianas,
empurradas para um conflito e em seguida obrigadas a bater em retirada.
"Foram muitas vítimas em vão", lamenta o policial.
"A Geórgia se colocou numa situação muito difícil,
sem saída." Giorgi não vê solução
militar para o conflito, e por isso acha que, se o Ocidente quisesse ajudar
a Geórgia militarmente, o resultado seria adverso: mais mortes
e destruição. "A ajuda devia ser política." Giorgi Abazadze, de
70 anos, que trabalha na companhia de petróleo Oil Corporation,
tem uma visão oposta à do tenente. Ele chama o repórter
do Estado porque diz que tem "algo importante" a dizer: "As
pessoas não estão levando em conta que, na noite do dia
7, (o presidente Mikhail) Saashkashvili propôs um cessar-fogo (aos
separatistas da Ossétia do Sul), recorda Abazadze. "Nesse
momento, eles duplicaram os disparos. Foi por isso que respondemos com
força total", justifica. Muitos jogam a culpa
do conflito integralmente sobre a Rússia. "A Ossétia
e a Abkházia pertencem historicamente à Geórgia",
afirma o engenheiro aposentado Erasti Eristavi, de 73 anos. "Foi
(o ex-ditador soviético Josef) Stalin quem criou as autonomias
regionais, porque ficava mais fácil de exercer controle." "Os russos não
deviam interferir na vida da Geórgia", diz a estudante Sobiko
Tatashvili, de 16 anos. "Não é problema de ninguém
o que acontece entre georgianos e ossétios", continua Sobiko,
que, como os demais entrevistados, é da etnia georgiana. "A
Rússia diz que a Geórgia está atacando tropas de
paz, mas isso não é verdade. Os russos querem derrotar a
Geórgia para depois conquistar outros países, como a Ucrânia."
Como muitos georgianos,
Sobiko se sente indignada com a inação do Ocidente: "Gostaria
muito de saber por que os Estados Unidos, a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a União Européia
não reagem." Eleito em 2003 em meio à Revolução Rosa, um movimento popular que se reuniu nessa mesma praça (daí o nome) para fazer valer o voto da maioria e evitar uma fraude eleitoral, Saashkashvili se propôs a recuperar para a Geórgia os territórios da Ossétia do Sul e da Abkházia, que declararam independência, no início dos anos 90, mas não foram reconhecidas pela comunidade internacional. Em seguida, postulou
a entrada da Geórgia na Otan, enfurecendo a Rússia, que
se tornou ainda mais complacente com o separatismo dos ossétios
e dos abkházios, como forma de desestabilizar o governo em Tbilisi. Muitos georgianos
criticam o estilo de Saashkashvili. "Esse governo não tem
tato político nem experiência diplomática", diz
a assistente social de uma fundação de caridade, que pede
para não se identificar. "Eduard Shevardnaze podia lidar tanto
com a Rússia quanto com os Estados Unidos", recorda ela, referindo-se
ao ex-presidente da Geórgia, que fora antes ministro das Relações
Exteriores da antiga União Soviética. O jornalista Badri
Tabishadze, de 51 anos, acha que o presidente está defendendo os
interesses do país. "O problema é que a Rússia
quer ver a Geórgia de joelhos", afirma. "Todos nós,
velhos e jovens, estamos prontos para lutar por nossa terra." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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