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Nas ruas de Gori,
um retrato da destruição |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Quarta-feira,
13 de agosto de 2008
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GORI, GEÓRGIA Dois caminhões
do Exército da Geórgia chocados de frente um contra o outro,
abandonados no meio da estrada. Tanques e veículos blindados destruídos.
Sucatas de automóveis. O cenário da entrada de Gori, 80
quilômetros a oeste de Tbilisi, a capital da Geórgia, dá
uma noção da retirada desordenada dos militares georgianos,
sob ataque russo. Uma fila de caminhões do Corpo de Bombeiros aguarda
no acostamento o fim do bombardeio aéreo para entrar na cidade
e apagar os incêndios nos prédios, a maioria residenciais. Muito pouca gente
restou em Gori, cidade de 50 mil habitantes, abandonada depois dos intensos
bombardeios dos últimos dias. Situada no centro da Geórgia,
Gori era a grande base militar georgiana mais próxima da província
separatista Ossétia do Sul, apoiada pelos russos, distante a 30
km. No início da tarde, havia cerca de 30 pessoas nas ruas, perplexas
com a destruição de suas casas e automóveis, além
da morte de pelo menos seis civis, incluindo uma criança. O cinegrafista
holandês Stan Storimans, da rede de TV RTL, também está
entre os mortos, e um repórter da mesma cadeia ficou ferido. Todos contaram que
o bombardeio os pegou de supresa. Não ouviram disparos de artilharia
nem mesmo o barulho dos aviões. A primeira sensação
foi a das bombas caindo. A artilharia georgiana havia disparado contra
as posições russas na região na segunda-feira. "Que Exército?",
perguntou irritado Emzari Maziashvili, dono de uma farmácia bem
em frente à prefeitura, no centro da cidade, destruída pelo
bombardeio. "O que você quer dizer? Não existe Exército
nenhum. Esses filhos da puta desapareceram. Só restaram 20 jovens
nessa região", continuou o farmacêutico de 33 anos.
"O resto são mulheres idosas. Ninguém estava atacando
os russos. Eles simplesmente vieram e bombardearam." Elgudja Khabashvili,
também de 33 anos, dono de uma loja vizinha à farmácia,
desabafou: "Quero que esse governo se foda, porque nunca pensa no
povo." O estado de ânimo
dos habitantes de Gori é bem diverso do dos manifestantes que foram
ontem às ruas de Tbilisi expressar apoio ao presidente Mikhail
Saakashvili. "Os russos atacaram
porque nosso presidente é um grande mentiroso", resumiu Misha
Gogichaishvili, um agente aposentado da KGB, o antigo serviço secreto
soviético. "Ele não é profissional. Prometeu
coisas só para ser eleito e depois não cumpriu." Saakashvili
foi eleito em 2003, em meio à Revolução Rosa, prometendo
restaurar a soberania sobre a Ossétia do Sul e a Abkházia,
que se proclamaram independentes no início dos anos 90. "Estamos muito
bravos com ele", prosseguiu Gogichaishvili, enquanto os bombeiros
apagavam as chamas de um prédio residencial atingido por um míssil.
"Ele mente que há só uns poucos soldados mortos. Tenho
certeza de que foram muitos mais. É um covarde." Gogichaishvili disse
que viu quando o míssil caiu sobre o prédio. Os moradores
se esconderam no porão do edifício. Foi ele quem foi contar-lhes
que seus apartamentos tinham sido destruídos. Ele contou que também
viu o corpo de um homem de cerca de 20 anos caído em frente à
farmácia, ainda com a embalagem de remédios que tinha acabado
de comprar. Gori foi bastante
castigada pelos confrontos. Praticamente todos os prédios foram
danificados. Até mesmo o museu dedicado a Josef Stalin, o ex-ditador
soviético que nasceu na cidade, teve todos vidros das janelas partidos.
Na frente da casa destruída de seu filho, um homem em estado de
choque apenas dava de ombros diante das perguntas do repórter do
Estado. Na Abkházia,
um porta-voz do autoproclamado presidente da província, Sergei
Bagapsh, afirmou que as forças separatistas haviam expulsado as
tropas georgianas da Garganta de Kodori, ponto estratégico de acesso
à região, que fica à beira do Mar Negro. O local
era o último reduto georgiano na região, ocupado em 2006.
Um oficial da reserva abkházio morreu e duas pessoas ficaram feridas
durante o combate, segundo o "vice-ministro da Defesa", general
Anatoly Zaitsev. A Rússia, que
nos últimos anos distribuiu passaportes na Abkházia e na
Ossétia do Norte e apóia as forças separatistas,
garantiu que não se envolveu na operação. Mas um
repórter da Associated Press afirmou ter visto 135 veículos
militares russos atravessando o território da Geórgia em
direção à Garganta de Kodori. Toda a população
da área - cerca de 3 mil pessoas - abandonou suas casas. O Alto Comissariado
da ONU para Refugiados informou ontem que o conflito iniciado na noite
de quinta para sexta-feira fez com que 100 mil pessoas deixassem suas
casas. O Programa Mundial de Alimentos, também da ONU, anunciou
ter distribuído rações de comida para 2 mil pessoas
em Tbilisi. A ajuda humanitária começa a chegar também
para milhares de refugiados noutras partes, como Vladikavkaz, capital
da província da Ossétia do Norte, que fica na Rússia. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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