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Arrasada, capital
da Ossétia do Sul vive pesadelo à espera do cessar-fogo |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Sexta-feira,
15 de agosto de 2008
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TSKHINVALI, OSSÉTIA
DO SUL Quando uma guerra
acaba, a primeira providência é recolher os corpos. Na estrada
que leva a Tskhinvali, o corpo de um homem está debaixo de uma
van tombada; o de outro está caído de barriga para cima,
os braços abertos, na frente de um posto de gasolina. O trânsito
intenso de tanques e blindados russos, assim como os disparos intermitentes
de artilharia e fuzis confirmam que a guerra continua, indiferente aos
anúncios de cessar-fogo e às iniciativas de negociações.
Em Tskhinvali, capital
da província separatista da Ossétia do Sul, há muito
mais militares russos e milicianos ossétios do que civis. Dos cerca
de 30 mil moradores, estima-se que tenham restado de 3 a 4 mil. Os militares
russos mobilizaram 30 mil militares na Ossétia do Sul, que lhes
serve de base também para operações no interior da
Geórgia. O Estado percorreu as principais ruas da cidade ontem
de manhã, e contou 50 civis - a maioria idosos. Não se vêem
crianças em Tskhinvali. Todos os homens em idade militar são
milicianos. Os militares russos
e seus aliados ossétios, em contrapartida, estão por toda
parte, esses últimos trafegando em caminhonetes, jipes e veículos
comuns, em geral "confiscados" da população. Assim
como os russos, eles trazem amarrado um pedaço de pano branco,
símbolo de sua missão autoconferida de "forças
de paz". A maioria dos ossétios fugiu para a Ossétia
do Norte, que faz parte da Rússia, enquanto os georgianos étnicos
que vivem na província foram para a Geórgia. Não faltavam
motivos. Em vários vilarejos ao longo da estrada há casas
pegando fogo: resultado do acerto de contas dos ossétios com os
georgianos, castigados pelo fato de o Exército da Geórgia
ter devastado a província. Na beira da estrada, bicicletas de crianças,
brinquedos, automóveis esmagados contam a história da abrupta
invasão do Exército georgiano, que há uma semana
percorreu essa estrada com blindados, varrendo tudo o que encontrava pela
frente. Assim como na capital, na estrada também só se vêem
alguns idosos caminhando com o olhar perdido. Mas a entrada em Tskhinvali
- o destino dos blindados georgianos - guarda a imagem mais chocante.
Nada permaneceu intacto. Cada casa e prédio ou foi destelhado ou
teve uma parede demolida, quando não as duas coisas. O cenário
de terra arrasada também testemunha a reação brutal
das Forças Armadas russas, deslocadas no dia seguinte para esmagar
a ofensiva georgiana. No principal cruzamento da cidade, dois tanques
georgianos viraram sucata. Noutra esquina, um tanque teve um pedaço
arrancado, como se fosse de brinquedo. A cidade não
tem eletricidade - nem, por conseqüência, água corrente.
Só os militares russos - instalados em numerosas bases - contam
com esses dois recursos: a água que trouxeram e geradores elétricos.
Os celulares funcionam precariamente: parte das antenas foi destruída. "Foi horrível",
descreve o miliciano ossétio Andrei, de 22 anos, estudante de inglês
na Universidade de Tskhinvali. "Não tenho palavras para descrever."
Ao lado do quartel-general ossétio - pouco danificado -, um jardim
de infância foi inteiramente arrasado pelos disparos de artilharia.
Andrei recorda que os conflitos começaram no dia 2. "N dia
8 eles invadiram com toda a força. Tentamos fazê-los recuar.
No dia 9, vieram de novo. Aí os rechaçamos", conclui
o soldado, sem mencionar a participação russa na vitória
sobre os georgianos. "A Ossétia do Sul quer ser parte da Rússia,
porque ela nos ajuda", explicou Andrei. Esse desejo é antigo,
e certamente a invasão georgiana não contribuiu para aplacá-lo. O hospital foi destruído,
ao lado dos outros prédios públicos, como a sede do governo
local, do Parlamento e do "Ministério das Relações
Exteriores" (nenhum país reconhece a independência da
Ossétia do Sul, declarada em 1992, depois de um breve conflito
armado). Os feridos são atendidos num acampamento montado pelo
Ministério de Situações Extraordinárias, da
Rússia, conhecido pela sigla MC, em letras cirílicas. É
também nas tendas do MC que os civis encontram água potável,
pão, sopa e ração militar. A enfermeira Evelina
Kokaeva, que trabalha no hospital, conta que, nos primeiros dias, os feridos
eram operados no subterrâneo do prédio. "Quatro jovens
soldados russos morreram e chorei como se fosse a mãe deles",
recorda Evelina. "Agora a grande Rússia vê quem é culpado", disse Vladimir Kulumbegov, um pedreiro de 47 anos. "Os georgianos não conseguem ver que foram eles que começaram a guerra. Eles fizeram coisas muito más. Claro que se estivéssemos no lugar deles não faríamos o mesmo." O ataque de uma semana atrás reforçou nos ossétios uma auto-imagem de vítimas que precisam de proteção - que a Rússia está pronta para suprir. Caminhando em frente
à praça principal da cidade, cuja estátua do grande
poeta ossétio, Kosta Hitagurov, teve o rosto arrancado pelos morteiros,
Evelina pediu: "Quero dizer às mães georgianas: vocês
deviam alertar seu governo e seu presidente que eles têm de parar
de fazer essas coisas contra seu próprio povo." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |