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Refugiados lotam
escolas de Tbilisi |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Sábado,
16 de agosto de 2008
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TBILISI No ginásio
da Escola 161, Tamar, de 9 anos, entretém as meninas menores. Muito
viva, quando vê o estrangeiro, vem conversar com ele. O repórter
lhe pergunta onde ela mora. "Aqui", responde Tamar, com um sorriso.
E onde morava antes? "Em Avnevi", diz ela, referindo-se a um
dos vilarejos mais castigados pelos combates da última semana na
Ossétia do Sul. "Vim para cá porque os russos bombardearam
minha casa." Como Tamar, havia
até ontem 49.920 refugiados em Tbilisi e 4.610 noutras partes da
Geórgia, disse ontem ao Estado uma porta-voz do Ministério
de Refugiados e Habitação. Não há escola na
capital de 1 milhão de habitantes que não abrigue refugiados
- e as férias de verão terminam em setembro. O Alto Comissariado
da ONU para Refugiados estima que 100 mil pessoas (2% da população
de 4,6 milhões) tiveram de deixar suas casas por causa do conflito
entre Rússia, separatistas ossétios e Geórgia. Mas
algumas pessoas foram para casa de parentes. Moradores de cidades como
Zugdidi e Senaki, cujos acessos são controlados pelos russos, não
conseguiram passar e se esconderam no campo. E a maior parte dos ossétios
se refugiou na Rússia. O agricultor Giorgi
Eluashvili só ficou sabendo ontem do paradeiro de sua mulher. O
casal estava em casa no vilarejo de Didze quando uma bomba caiu no quintal.
Sua mulher ficou presa nos escombros. Só três dias depois,
quando os combates diminuíram, o resgate pôde vir retirá-la.
Levaram-na para o Hospital Militar de Gori, a 30 km. Não havia
leito para ela. Mesmo com a perna ferida, a mulher caminhou 15 km até
Khashuri, perdendo o contato com a família. Um primo a encontrou
ontem. Mas a Cruz Vermelha informou que não pode levá-la
para Tbilisi enquanto não houver cessar-fogo. A procura de Eluashvili
não acabou. Há três dias ele perdeu contato com o
filho, que teve que viajar com a mulher e dois filhos de Nikozi, fora
da Ossétia, para Khashuri, na província, onde sua sogra
morreu de doença. O genro de Eluashvili, Ilia Parishvili, de 39
anos, é refugiado pela segunda vez. Em 1991, durante a guerra da
independência da Ossétia do Sul contra a Geórgia,
ele teve que deixar sua casa em Tskhinvali, onde restaram poucos georgianos
étnicos como ele. A viúva Luiza
Tsuriashvili, de 52 anos, também não sabe se seu filho está
vivo ou morto. Quando os russos começaram a bombardear seu vilarejo,
Pkhvenisi, ela fugiu para Gori com um casal de amigos. O filho Shalua,
um tratorista de 30 anos, ficou porque queria juntar 30 vizinhos para
levar na carroceria do seu trator. Há três dias ele não
atende o celular - ela não sabe se porque a bateria acabou (não
há eletricidade na Ossétia do Sul) ou se porque lhe aconteceu
algo. O casal que levou
Luiza a Gori achou que era seguro voltar, para pegar mais pertences em
casa. Seu carro foi alvejado no caminho e o casal morreu. Luiza veio de
Gori para Tbilisi de trem, sozinha. Ela conta que até a igreja
de Pkhvanisi foi bombardeada, e que a maioria das 400 famílias
de georgianos étnicos que vivem lá morreu. O marido de Nino Markosashvili
não estava na escola ontem à tarde. Ele tinha ido fazer
contatos com ossétios em Tbilisi, para tentar trocar seu irmão
e seu sobrinho por prisioneiros ossétios. Os dois foram capturados.
Nino, de 41 anos, recorda que sempre teve boas relações
com os ossétios em Khashuri, onde mora há 22. "Não
sei por que a situação mudou", diz ela. "Sou contra
o que (o presidente da Geórgia, Mikhail) Saakashvili fez",
continua, referindo-se à ofensiva de uma semana atrás contra
a província separatista. "Prefiro os russos." A declaração
causa furor entre os refugiados que aguardam, em círculo, para
contar sua história ao repórter do Estado. "A
Ossétia pertence à Geórgia desde 1917", reage
Robizon Ecadashvili, de 69 anos, de pai georgiano e mãe ossétia.
"Se os russos continuarem agindo assim, nunca voltaremos", diz
o funcionário aposentado do estúdio de cinema de Tbilisi,
que está na escola com quatro filhos e cinco netos. Ele afirma
que, durante conflitos em 1989, viu soldados russos cortarem a barriga
de mulheres georgianas grávidas. A imensa maioria dos
refugiados em Tbilisi é composta de georgianos étnicos.
Mas muitos têm ascendência ossétia, já que o
conflito entre as duas etnias data do fim da União Soviética
(1990), da qual a Geórgia declarou independência, assim como
a Ossétia do Sul e a Abkházia fizeram depois em relação
à Geórgia. "Foram os russos que começaram tudo,
não os georgianos ou ossétios", diz Marina Jokhadzo,
cuja avó era ossétia. "Se os russos saírem da
Geórgia, viveremos em paz." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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