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'Um miliciano mirou
o fuzil no meu peito e pulei na estrada' |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Domingo,
17 de agosto de 2008
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TSKHINVALI, OSSÉTIA
DO SUL Eram 10h47 de quarta-feira
quando chegamos à bifurcação depois de Gori, 80 km
a oeste de Tbilisi (capital da Geórgia). À esquerda, a estrada
segue para o Porto de Batumi, no Mar Negro; à direita, para Tskhinvali,
capital da província separatista da Ossétia do Sul. Entramos
devagar pela estrada coberta de brita fina. A 100 metros, vimos os primeiros
tanques russos. Um soldado se abaixou e mirou o fuzil no nosso jipe, em
posição de tiro. Voltamos de ré para a estrada principal. À frente, na
direção de Batumi, os poucos carros na estrada davam meia-volta
e aceleravam em direção a Gori. Disparos de fuzis e artilharia
vinham daquele lado. Eu saberia depois que o Exército russo estava
completando ali o seu movimento de pinça para bloquear o acesso
georgiano às províncias separatistas da Ossétia do
Sul e da Abkházia (a noroeste). O motorista e o dono da agência
de carros - que nos acompanhava porque os seguros não estão
cobrindo viagens para fora de Tbilisi e ele queria certificar-se de que
seu jipe voltaria - ficaram de me esperar nos arredores de Gori, que,
conforme eu presenciara na véspera, tinha sido bombardeada pela
aviação russa e abandonada pelo Exército georgiano. Voltei caminhando
pela estrada, com minha credencial na mão e gritando: "Press,
Korrespondant." Quando cheguei ao posto de controle, que representava
a linha divisória entre as áreas controladas pela Geórgia
e pela Rússia, contei 13 tanques e cerca de 30 militares russos.
O comandante era um major. Mostrei minha credencial e meu passaporte brasileiro.
Expliquei que queria ir para Tskhinvali. Chamou um soldado checheno, que
pilotava um dos tanques e falava um pouco de inglês. O soldado examinou
minha câmera, que não tinha nenhuma imagem. Levou-me para
perto de uma pequena construção de alvenaria, parecida com
um posto da polícia rodoviária no Brasil, e me disse que
eles parariam um carro para me levar para Tskhinvali. Tirou de um bolso
da farda um pacote de gaze e amarrou no meu ombro. A faixa branca é
o símbolo dos militares russos e dos milicianos ossétios,
que se consideram "forças de paz" na Ossétia do
Sul. Um acordo firmado em novembro de 1992, depois da declaração
de independência da Ossétia do Sul, seguida de um conflito
armado, criou forças de paz russas, ossétias e georgianas,
para garantir a ordem na província. Os georgianos acusam os russos
de apoiar os separatistas ossétios, e as escaramuças entre
os dois lados foram freqüentes, até desencadear, no dia 8,
a ofensiva militar da Geórgia, para retomar a província.
Peguei o celular para
avisar Giorgi, o dono da locadora de carros, que tinha conseguido passar.
O soldado quis ver as imagens do celular. Mostrei uma foto dos meus filhos.
Ele me disse que também tinha dois filhos, era do Daguestão
(república russa), e me pediu para telefonar para casa. Marquei
os números, mas a ligação não completou. Faltava
o código da Rússia (7), que ele não sabia. Talvez contrariado
com o telefonema, o major deu ordem para o soldado manobrar o seu tanque.
Então o próprio major se aproximou e me ofereceu uma garrafa
de Fanta, com um quarto de conteúdo. "Spassiba", recusei.
Tinha acabado de tomar quase uma garrafa de água no carro, antes
de vir. O major insistiu. Um soldado ao lado fez sinal para eu aceitar.
Compreendi que era uma ordem, e virei todo o refrigerante, morno e sem
gás. Só mais tarde entenderia o valor do líquido.
Não há água potável, comida nem eletricidade
em Tskhinvali. Só os militares russos têm geradores e suprimentos. Os disparos se aproximaram
do checkpoint. Mandaram que eu ficasse atrás de um tanque, enquanto
assumiam posições de tiro. Nisso, cinco milicianos ossétios
cruzaram o posto a toda velocidade, num velho Lada Samara. Em seguida,
parou um sedã seminovo da Opel, com um jovem casal dentro. O checheno
me mandou entrar correndo no carro, e saírmos depressa. Os disparos
se intensificavam. Rodamos menos de um
quilômetro. Depois de uma curva, os ossétios nos esperavam.
Apontando os fuzis para nós, mandaram descermos do carro. Um dos
milicianos assumiu o volante do Opel. Mandaram que eu me sentasse no banco
de trás do Lada. O motor do velho carro tinha apagado, e eles começaram
a empurrá-lo, até pegar no tranco. Um miliciano de camiseta
preta e calça de camuflagem ajoelhou-se no banco do passageiro
da frente e mirou o fuzil no meu peito, gritando. Abri
a porta à minha direita com tanta força que a maçaneta
saiu na minha mão. Pulei na estrada. Eles arrancaram com a porta
aberta. O Opel ia à frente. O casal chorava, abraçado
na beira da estrada. Ele era georgiano, e ela se identificou como russa.
Deduzi que era da Ossétia do Norte, que pertence à Rússia,
para onde eles estavam tentando ir. O casal ficou sem nada. Dinheiro,
documentos, lap top e bagagem foram com o carro. Caminhamos de volta
para o checkpoint russo. Quando nos avistaram, os russos vieram no tanque
pilotado pelo checheno, com o major sentado à frente. O rapaz georgiano
ergueu as mãos para o alto, como quem se rende. Contrariado, o
major mandou-o abaixar os braços. O rapaz contou a história,
gaguejando, em russo, numa mescla de nervosismo e dificuldade com a língua,
falada por todos os georgianos até que o país se proclamou
independente em abril de 1991 - quatro meses depois do fim da União
Soviética. A nova geração não fala russo.
Dois carros velhos
vindo de Tskhinvali pararam. Desceram dois homens e três mulheres
idosos, e uma de meia idade, chorando. Antes que os russos tivessem tempo
de cuidar de todos os casos, que se acumulavam, seis carros com 30 milicianos
ossétios se aproximaram. Seis russos desceram do tanque e cercaram
os carros apontando os fuzis para eles. Mandaram descer, largar as armas
e deitar no chão. Aliados dos russos, os ossétios, perplexos,
relutaram em obedecer. Não sabiam que o major estava tentando restaurar
sua autoridade depois que os outros ossétios o desafiaram confiscando
o carro do casal. Os milicianos estavam
em folgada superioridade numérica, mas os russos tinham um tanque
e, muito mais importante que isso, dão a palavra final na Ossétia
do Sul. Nos dois dias que passei na província, só vi um
blindado com milicianos ossétios. Eles desfilavam em Tskhinvali,
com a bandeira de faixas branca, amarela e vermelha da "República
da Ossétia do Sul", visivelmente orgulhosos de seu veículo.
Mas a norma é circularem em caminhonetes, jipes e carros de passeio,
obviamente confiscados como o Opel do rapaz georgiano. Em contrapartida,
os russos têm dezenas de tanques, carros blindados e caminhões
na província. Humilhados, os ossétios
se levantaram do chão e vieram descontar no casal, formando um
semicírculo ao nosso redor. Alguns queriam agredir o rapaz; outros,
levar a moça. Os russos os impediram. Os milicianos entraram nos
seus carros e partiram em direção ao checkpoint. Em seguida, um jipe do Exército russo chegou trazendo três jornalistas russos, que tinham pedido para ver a situação na estrada até a linha de demarcação, por eles chamada de "fronteira de Gori". Eles desceram e o
jipe seguiu. Esperamos uma carona. Parou um sedã BMW preto, com
os vidros estilhaçados e dois soldados russos. O do banco do passageiro
usava goggles militares, que lembram óculos de mergulhador. Nós
quatro sentamos no banco de trás. O BMW parecia ter acabado de
ser confiscado do outro lado da linha divisória, porque os militares
pararam depois de novo para arrancar, com o cabo do fuzil, o pára-brisa
espatifado, que atrapalhava sua visão. Logo adiante, pararam
novamente, num restaurante, do qual saíram milicianos ossétios,
que lhes entregaram caixas de cerveja georgiana. Os soldados as destamparam
com os dentes, e foram bebendo no caminho. Deram um maço de cigarro
russo da marca Alliance para cada um de nós. Estavam eufóricos.
A cada militar russo e miliciano ossétio que cruzavam, buzinavam
e mostravam o punho fechado - saudação-padrão. Conforme
avançávamos nos 25 km até Tskhinvali, e o motorista
virava as cervejas, nosso trajeto pela estrada de asfalto - riscado pelas
lagartas dos tanques - se tornava mais errático. Dois corpos de homens
ainda estavam na beira do caminho - um debaixo de uma van tombada de lado
e outro deitado com a barriga para cima, em frente a um posto de gasolina.
Brinquedos, bicicletas de crianças e cobertas na beira da estrada,
assim como carros esmagados, davam uma idéia da avassaladora ofensiva
georgiana dos dias 8 e 9, repelida em seguida pelos russos. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |