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Tskhinvali: população
e esperanças arrasadas |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Domingo,
17 de agosto de 2008
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TSKHINVALI, OSSÉTIA
DO SUL Chegamos a Tskhinvali às 13h. Recebi uma mensagem da minha operadora de celular: "Bem-vindo à Rússia." Assim como na estrada, há muito mais militares que civis nas ruas. O estádio, o ginásio, escolas - todas as instalações e terrenos grandes da cidade foram convertidos em bases militares russas. Nenhuma casa ou prédio ficou intacto. O hospital, o Parlamento, a sede do governo e do "Ministério das Relações Exteriores" (nenhum país reconhece a independência da Ossétia do Sul) foram destruídos. Sucatas de tanques georgianos espalham-se pelas ruas. Tskhinvali tinha 40
mil habitantes antes da ofensiva georgiana; toda a Ossétia do Sul,
70 mil. Agora, estima-se que tenham restado entre 3 mil e 4 mil pessoas.
Até sexta-feira, 54.530 refugiados tinham conseguido registrar-se
no governo georgiano. Milhares de ossétios fugiram para a Ossétia
do Norte, que pertence à Rússia. Em dois dias na cidade,
contei cerca de cem civis nas ruas - quase todos idosos, alguns de meia
idade e duas mulheres jovens. Não há crianças. Todos
os homens em idade militar são considerados milicianos, e a maioria
carrega fuzis, mesmo que não use farda. O hospital de Tskhinvali--
ele próprio destruído - registrou 300 mortes. Segundo o
Exército russo, morreram 2.100 civis e 74 militares russos, e outros
171 ficaram feridos. A Geórgia considera exagerado esse número
de civis mortos. Os moradores com quem
conversei disseram que a Rússia os "salvou". A imensa
maioria deseja que a Ossétia do Sul se una à do Norte, tornando-se
uma república da Federação Russa. Ao mesmo tempo,
dizem que não têm nada contra os georgianos étnicos,
mas sim contra o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, que
chamam de "genocida". O Ministério
de Situações Emergenciais da Rússia ergueu dois acampamentos
de ajuda humanitária, um com um hospital de campanha e outro com
distribuição de comida e de água e registro de refugiados.
Lá bebi água e almocei um prato de ração de
trigo integral com carne desfiada. Havia também sopa de legumes
e pão. Quando a tarde caiu,
comecei a me preocupar em voltar. Na Ossétia do Sul vigora um toque
de recolher a partir de 19h. Durante todo o dia, Giorgi me telefonou,
e a cada telefonema avisava que os confrontos tinham recrudescido ao redor
de Gori, e que ele tinha tido de se mover para mais longe do ponto de
encontro. Ao fim, encontrou abrigo num vilarejo ossétio em território
controlado pela Geórgia. Ofereci US$ 200 para todos os motoristas que encontrei na rua, milicianos e civis: "Auto (carro) granitze (fronteira) Gori". Todos recusaram. Entendi que não fazia sentido aumentar a oferta. Uma mulher de meia
idade que entendia um pouco de inglês parou um jipe com cinco jovens
milicianos ossétios e explicou minha situação. Eles
usavam fardas completas, o que lhes conferia certa institucionalidade.
Subi no banco do passageiro da frente, espremido contra um miliciano.
Andamos vários quarteirões até chegarmos a um casarão
com um pátio na frente, onde milicianos coziam carneiro numa grande
panela sobre um fogo a lenha. Alguns minutos depois, chegou Andrei, um
soldado ossétio de 22 anos, que estuda inglês na Universidade
de Tskhinvali. Fomos para um cômodo
com dois beliches, um de frente para o outro, no quartel da milícia,
ao lado do casarão. Examinou meus documentos. Perguntou sobre a
situação na Geórgia e o que os georgianos pensavam
sobre o conflito. Ficou com os olhos marejados, ao descrever a ofensiva
georgiana: "Foi horrível." Andrei me mostrou o jardim
de infância ao lado do quartel, destruído pela artilharia.
Saímos caminhando pela cidade, enquanto ele me explicava o que
era cada prédio destruído. "Espero que um dia esse
conflito se resolva, mas vai levar muito tempo." Andrei me levou ao
primeiro posto de controle do Exército russo, na saída de
Tskhinvali. Explicou meu caso. Os soldados russos disseram que não
havia transporte para o checkpoint. Nisso apareceu um Mercedes com cinco
milicianos ossétios dentro. Era o primeiro carro com o pára-brisas
intacto que eu via. Ficaram contentes em poder me levar, desde que eu
mostrasse minha credencial de jornalista em cada checkpoint russo e explicasse
que eles estavam me "escoltando". Deduzi que queriam viajar
e precisavam de apresentar uma justificativa aos russos. Estavam animadíssimos.
Pediram que os fotografasse e tirássemos fotos juntos. Elogiei
o MP3 player do carro, e puseram a música pop americana a todo
volume. Um deles falava um pouco de inglês. Chamava-se Alan (o nome
da tribo da qual descendem os ossétios) e tinha 21 anos. Todos
disseram que odiavam os georgianos, o que era de esperar. Perguntei se
os russos eram bons, e Alan fez uma revelação interessante:
"Rossiye", disse ele, com a expressão de desgosto, e
bateu uma mão contra a outra, como num golpe de caratê. Depois de passarmos
sem problemas por um checkpoint russo e um ossétio, chegamos aonde
meus amigos queriam ir: um posto na beira da estrada, no qual os milicianos
tiravam gasolina diretamente do reservatório. Estávamos
a 4 km da linha de demarcação que eu cruzara pela manhã.
Duzentos metros adiante havia um posto de controle russo. Os ossétios
expuseram, confiantes, o meu caso. Havia duas poltronas no vão
de passagem, no meio da estrada. Quando permitiam a passagem, o major
encarregado e um tenente afastavam as poltronas. Depois de ouvir meu caso,
os dois se sentaram nas poltronas. O major cruzou os braços e balançou
a cabeça com os olhos fechados, enquanto eu argumentava. Outro major estava
sentado sobre um tanque ao lado. Fui insistir com ele, dizendo que eu
poderia caminhar, apontando para a estrada à nossa frente, coberta
por uma espessa fumaça branca. Ele falava um pouco de inglês.
"Não existe mais o checkpoint pelo qual você passou.
Destruímos todos os carros que havia na área e o seu motorista
agora deve estar morto", disse ele com um sorriso. Respondi que estivéramos
em contato e eu sabia que ele tinha escapado. O major repetia: "Niet."
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