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'Relaxe. Pensaram
que você era georgiano', disse o soldado Volva |
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| LOURIVAL
SANT'ANNA Enviado especial |
Domingo,
17 de agosto de 2008
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TSKHINVALI, OSSÉTIA
DO SUL Os milicianos e eu
entramos no Mercedes de novo e fomos até um grande pátio
de uma empresa de terraplanagem, convertida em base dos ossetianos. Havia
cerca de dez milicianos lá. Estavam disparando na nossa direção,
e os milicianos corriam de um lado para outro, escondendo-se entre os
caminhões e tratores. Dois milicianos me levaram de volta para
o checkpoint. Fui até o major da poltrona; "Por favor, me
deixe caminhar." Ele chamou um soldado para traduzir, que se apresentou
como Volva (abreviação de Vladimir): "Aqui, somos o
Exército russo, mas lá existem homens maus. Vão te
matar." Mal terminou de dizer
isso, e uma velha perua Opel cruzou o checkpoint, com dois milicianos
ossétios dentro. Quando me viram, pararam o carro, e o passageiro
veio correndo na minha direção, gritando e apontando o fuzil
para mim. Vociferando, ele apertou a boca do fuzil contra minha garganta.
Instintivamente, segurei o cano, tentando aliviar a pressão. Era
a terceira vez que me apontavam um fuzil no mesmo dia. Os russos gritavam
várias coisas, entre elas: "Brazilia, Brazilia." O ossétio
deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. "Relaxe", disse
Volva. "Pensaram que você era georgiano." Eram 18h15. Um comboio
de blindados e caminhões russos parou no checkpoint. Assim como
os milicianos, vinha de Gori, para onde eu queria ir. "Eles vão
te levar para Gori", disse o major do tanque. "Spassiba",
agradeci. Subi no blindado da frente. "Dokument", gritou o major
que o comandava. Mostrei o passaporte e a credencial . Em vez de dar meia-volta
em direção a Gori, o comboio atravessou o checkpoint. Eu
estava voltando para Tskhinvali. No caminho, um capitão requisitou
meu bloco de anotações, cuja espiral despontava do bolso
da calça cargo. Compreendi que não estava ganhando uma carona.
Estava preso. Quando chegamos a
Tskhinvali, me mandaram entrar no blindado. Paramos numa base do Exército.
Os militares descarregaram o butim: metralhadoras, fuzis e munição,
abandonados pelo Exército georgiano que batia em retirada. Um major
me disse que estava encarregado de mim e requisitou minha câmera
e documentos. O capitão lhe entregou meu bloco. Fomos num jipe
para o qualtel-general russo em Tskhinvali. No caminho, o major me perguntou
se eu tinha visto a infantaria do Exército americano no caminho
de Tbilisi a Gori. A pergunta revelava uma ignorância atroz, para
um oficial. Em seguida, perguntou se eu tinha visto forças especiais
americanas. Voltei a dizer que não. "Os americanos só
sabem fazer hambúrguer e refrigerante. O Exército deles
é uma merda", me disse ele. "Se Bush vier a Tbilisi,
o Exército russo vai foder com ele." Depois de meia-hora
de espera no jipe, levaram-me para uma tenda com longos bancos de madeira
e uma mesa sobre a qual estavam um grande mapa militar da região,
cheio de anotações de coordenadas. Um coronel, um tenente-coronel,
um capitão e um tenente que seria o intérprete me esperavam.
Minhas coisas estavam espalhadas sobre o mapa. Fui interrogado durante
três horas. Mandaram-me explicar cada foto na minha câmara
e cada anotação que lhes chamava a atenção
no meu bloco. Para os militares russos, não fazia sentido que alguém
cruzasse a linha divisória do conflito. Ou você está
de um lado, ou do outro. Perguntaram-se por quantos postos de controle
do Exército georgiano eu tinha passado, e se havia forças
terrestres da Geórgia em Gori. Não havia nada, respondi.
Eles tinham batido em retirada. Na terceira hora,
deixei de ser tratado como suspeito para me tornar apenas um transtorno.
"Você se arriscou demais", me disseram eles, enquanto
me ofereciam chá, bolachas e geléia. "Você é
o único jornalista não-russo na Ossétia do Sul. Todos
os que estão aqui vieram conosco, pela Ossétia do Norte."
Eles queriam que eu fosse para a Rússia. Insisti em voltar para
a Geórgia. "Você é livre", me disseram.
"Vamos ajudá-lo a cruzar para Gori." Devolveram minhas
coisas e finalmente me deixaram ligar meu celular. Dormi no alojamento dos oficiais. Passei a manhã seguinte com o capitão Vladimir Ivanov, responsável pela imprensa, percorrendo Tskhinvali num jipe. Como o miliciano ossétio Andrei na véspera, ele queria que eu visse a destruição. Mostrou-me os estilhaços de morteiros usados pelos georgianos, e soldados russos usando detectores em busca de minas. Saí de Tskhinvali ao meio-dia, num comboio de três veículos blindados, liderado por um jipe. Havia dez jornalistas russos também. Uma hora e meia depois,
paramos numa grande base perto do local do checkpoint que eu cruzara na
manhã anterior. Havia dezenas de tanques, blindados e caminhões.
Mandaram-me entrar no blindado. O comboio seguiu, e pela janela minúscula
do veículo vi que estávamos atravessando Gori, inteiramente
deserta. Os russos a haviam tomado e empurrado a linha divisória
uns 10 km para a frente. O comboio parou. Abriram a escotilha. "Brazilian",
gritaram. Desci do blindado e cruzei caminhando a linha divisória.
Peguei carona num carro da BBC, que me trouxe para Tbilisi. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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