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Parentes
acompanham tentativa de resgate nos escombros |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Sábado,
16 de janeiro de 2010
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PORTO PRÍNCIPE As lagartas da retroescavadeira
recuam cautelosamente. Os espectadores se agitam. A tarde cai sobre Porto
Príncipe , e não resta muito tempo de luz. O cheiro forte
de carniça que exala dos escombros - e que se sente por todo o
centro da cidade - é outro indicador de que não resta muito
tempo. Cinco sobreviventes foram retirados desses escombros nos dois dias
anteriores. Ninguém sabe dizer quantas pessoas - vivas e mortas
- restam ali. O pedreiro Diosenes
Jackson, de 46 anos, move-se de um lado para o outro, os olhos injetados
e a voz rouca, depois de três dias esperando que seu irmão
ressurja do prédio onde trabalhava. "Tenho certeza de que
meu irmão está vivo, porque ele tem um grande coração
e um grande espírito", assegura. "Ele é um lutador,
é sexto dan no karatê", orgulha-se. Seu irmão,
o agrônomo Roberto Jackson, de 57 anos, era o diretor de Planejamento
do ministério. Sua mulher aguarda chorando, recostada no peito
de uma parente, num banco de praça em frente ao prédio.
Ela diz que 50 famílias dos funcionários soterrados juntaram
US$ 5 mil para pagar o serviço da retroescavadeira, embora a máquina
pertença ao Ministério de Obras Públicas. Embora grande parte
do centro e de outros bairros da cidade tenha vindo abaixo, há
muito poucas máquinas auxiliando no resgate de corpos, incluindo
algumas da ONU. A poucas quadras do prédio do ministério,
os escombros de uma casa funerária caíram sobre o carro
que transportava os defuntos, numa confirmação irônica
de que os mortos foram deixados à própria sorte. Muitos
corpos continuam jogados nas calçadas, os membros retorcidos e
enrijecidos. Alguns moradores andam de máscaras ou protegem a boca
e o nariz com panos; outros passam pasta de dente em torno do nariz e
da boca, num artifício quase supersticioso para livrar-se do mau
cheiro e das pestilências que ele evoca. Depois de um primeiro
momento de frenética atividade, tentando arrancar com as mãos
as pedras que cobriam seus parentes e seus bens, os haitianos parecem
ter entrado numa fase de letargia, de impotência diante da dimensão
da destruição e da falta de meios materiais para enfrentar
os escombros - que, a maioria acredita, ainda mantêm presos muitos
vivos. Na calçada
em frente ao mercado central de Porto Príncipe, inteiramente destruído
pelo tremor de 7 graus na escala Richter,dezenas de proprietários
das antigas lojas passam o dia sentados, como se continuassem esperando
os fregueses. "Ninguém do governo veio aqui, nenhuma máquina,
nada", exalta-se Jacques Weber, de 33 anos, que tinha uma loja de
roupas e calçados esportivos. "Eu pago imposto todos os meses",
protesta, ainda usando o verbo no presente. Os lojistas guiam o repórter
sobre os escombros, apontando: "Aqui embaixo existem muitos corpos,
e pessoas ainda vivas também." Na Rua Bonne Fois
(Boa Fé), que cruza o mercado central, Paule Sonia, de 40 anos,
pica repolhos e descasca mandioquinhas e batatas num caldeirão,
para um cozido que vai distribuir aos parentes e vizinhos, com ingredientes
que seu irmão Celan, um ex-dono de loja no mercado, comprou com
suas últimas economias. Paule improvisou a sua cozinha na frente
dos destroços de sua casa, e dedica-se placidamente a fazer o cozido,
como se tentasse reviver por um momento a sua antiga rotina. Em contraste, muitos moradores de Porto Príncipe estão deixando tudo para trás. Carregando trouxas sobre as cabeças, eles caminham em direção aos terminais de micro-ônibus na saída da cidade, ou seguem a pé pelas estradas. Seu destino em geral são as casas dos parentes nas províncias. Alguns poucos seguem para a República Dominicana, que divide a Ilha de Hispaniola com o Haiti. Mas só aqueles que já tinham visto ou residência no país vizinho podem cruzar a fronteira. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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