|
Enterros
sem rituais violam preceitos do vodu |
|
|
LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
17 de janeiro de 2010
|
|
PORTO PRÍNCIPE No rito de "expedição"
dos mortos, os fiéis da religião tradicional haitiana cantam
preces, enquanto os espíritos esperam com a cabeça para
baixo, em posição de penitência, explica o hougan
(sacerdote vodu) John Clément, de 28 anos. Feitas as orações,
eles podem ir descansar, sobre uma fonte de água ou a sombra de
uma árvore. Caso contrário, permanecem na posição
incômoda, como se estivessem presos. No seu terreiro no
alto da favela de Pelerin, cujos barracos de alvenaria se equilibram milagrosamente
na encosta do morro, Clément interpreta as razões que levaram
os deuses a impor mais essa catástrofe aos haitianos, já
castigados por furacões, pela miséria e pela incapacidade
de manter um regime minimamente estável: "Os deuses castigam
o povo, porque ele não segue a sua vontade, não obedece
suas ordens", diz o sacerdote, ao lado de uma mulher de 25 anos,
deitada numa cama e completamente envolta num lençol, que está
sendo tratada por ter sido possuída por "maus espíritos".
No outro canto da sala, pequenas espadas usadas nos rituais de vodu, e,
nas paredes, a bandeira azul e vermelha de São Jacques Majeur,
a amarela e branca da Sereia e a preta do diabo Lesifer (ou Lúcifer). Ao pé do morro,
centenas de pessoas disputam espaço numa efervescente feira de
verduras e frutas. A cena contrasta com o resto da cidade, onde a maioria
das lojas está fechada e o mercado central foi destruído.
Aqueles que ainda têm dinheiro fazem pequenas compras para o almoço,
na manhã ensolarada de sábado. Apesar da ausência
de policiais e seguranças, não há incidentes. Na parte mais alta
do mesmo morro, fica o bairro elegante de Petionville, onde moram as famílias
ricas do Haiti. Embora também estejam na encosta do morro, as casas,
bem construídas, em geral não sofreram abalos com o terremoto
de terça-feira. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |