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Fuzilamentos
a queima-roupa indicam execuções sumárias |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Segunda-feira,
18 de janeiro de 2010
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PORTO PRÍNCIPE Os cinco corpos foram
encontrados nos bairros de Bel Air e Boudon. Um deles teve o rosto desfigurado
por um tiro de calibre 12 na têmpora. Havia também marcas
de espancamento. Aparentemente, eles foram mortos na manhã ou madrugada,
segundo pessoas que os encontraram. "São ladrões, saqueadores,
gente que se aproveita da situação", disse um haitiano.
"A prisão foi destruída pelo terremoto. A polícia
não está prendendo os bandidos. Está executando."
Na noite de sábado,
o carro do Estado passou por um veículo da polícia
parado na rua. Depois de se distanciar algumas centenas de metros, os
repórteres ouviram um disparo. A rua estava inteiramente deserta.
"Está
havendo execuções, mas não é a polícia",
garantiu o policial Jimmy Pierre. "São bandidos, ex-presidiários,
que estão matando e botando a culpa na polícia." O Estado tentou
ouvir um porta-voz da polícia. O prédio da Direção
Departamental do Oeste (que tem jurisdição sobre a capital),
em frente ao palácio presidencial destruído pelo terremoto,
também foi severamente atingido, e desocupado. Policiais informaram
que o comando foi transferido para o quartel-general do Corpo de Bombeiros.
Mas suas salas também estavam vazias. De pé ao lado de uma
viatura em frente ao QG dos bombeiros, Pierre disse que os policiais estão
prendendo os criminosos em instalações alternativas, e apontou
para janelas do prédio: "Lá mesmo existem presos."
Não soube dizer quantos. No fim da tarde de
sábado, dezenas de pessoas disputavam alimentos e produtos de higiene
arrancados dos escombros de lojas na Grande Rue, uma das principais ruas
comerciais de Porto Príncipe. A multidão ocupava toda a
avenida. Dois jipes com militares da missão de paz da ONU despontaram
ao longe. A multidão começou a correr. Os militares passaram
dando tiros para o alto. Aparentemente, essas
pessoas tinham chegado tarde demais para entrar na fila do Estádio
Sylvio Cator, a poucas quadras dali, onde o Exército brasileiro
em conjunto com paraquedistas americanos estava distribuindo comida. Ao
atingir 3 mil pessoas na fila, os portões do estádio foram
fechados. Na primeira distribuição maciça de alimentos
depois do terremoto, foram doadas 29 toneladas, recolhidas pela ONG IMO.
A partir de ontem a missão da ONU mudou de estratégia, e
foram feitas várias distribuições, e em menor quantidade,
para atingir mais famílias. Em geral, não
se vêem em Porto Príncipe cenas clássicas de saque,
em que as pessoas invadem lojas ou depósitos de comida ou avançam
sobre caminhões carregados de suprimentos. O que tem ocorrido são
situações como essa, em que as pessoas encontram brechas
em escombros que escondem comida ou algum outro produto valioso. Depois
de vários dias fechado, o comércio de Porto Príncipe
tem voltado gradualmente a funcionar, embora a grande maioria das lojas
permaneça com as portas trancadas. A cada dia se vêem
mais pessoas trabalhando e fazendo compras. Conforme as atividades normais
são retomadas, aumentam as situações de tensão,
como conflitos nos postos de gasolina. Eles se mantêm fechados pela
maior parte do tempo. Quando o combustível é entregue, formam-se
instantaneamente filas imensas, e começam as brigas entre os motoristas. "A ajuda humanitária
está revertendo o quadro, com reflexos diretos sobre a segurança",
disse o coronel João Batista Carvalho Bernardes, comandante do
Batalhão Brasileiro de Força de Paz no Haiti. "A população
vai se acalmar à medida que for recebendo água, comida e
medicamentos. " Outra prioridade é
recolher os corpos espalhados pelas ruas de Porto Príncipe. A operação,
também a cargo do Exército brasileiro, teve início
no sábado, depois de autorização da ONU. No primeiro
dia, foram recolhidos 69 corpos. Eles são colocados em valas comuns,
com capacidade para 20 corpos cada, de acordo com as normas da Cruz Vermelha.
São fotografados e descritos em relatórios individuais,
para facilitar o reconhecimento posterior pelas famílias, que podem
retirá-los mais tarde para enterro definitivo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |