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Sem
controle, saqueadores tomam conta de Porto Príncipe |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Terça-feira,
19 de janeiro de 2010
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PORTO PRÍNCIPE O principal foco da
ação dos saqueadores é o cruzamento da Grande Rue
com a Rue de la Fontfort, onde fica o antigo Mercado de Ferro, um prédio
com forma de estação de trem, cuja estrutura metálica
foi arrancada de seu alicerce pelo terremoto. Crianças, jovens,
adultos, velhos, homens e mulheres vasculhavam as lojas à procura
de qualquer coisa - alimentos, produtos higiênicos, cosméticos,
ferragens, material de escritório - antes à venda no centro
comercial. Do alto de um prédio,
alguns homens jogavam caixas pela janela, que eram agarradas pela multidão
na rua. Centenas de pessoas se esgueiravam por entre os escombros, pisando
sobre os instáveis blocos de concreto, amontoados sobre cadáveres,
que exalam um forte cheiro. Até mesmo num prédio pegando
fogo alguns mais ousados se desviavam das chamas à cata de algo
de valor. Os saqueadores chegavam com sacos, caixas e até malas
para o transporte do que quer que encontrassem. Homens com pedaços
de pau atacavam os saqueadores que reuniam os produtos mais atraentes,
e que por sua vez se juntavam e enfrentavam, desarmados, os assaltantes.
Em geral os saqueadores andavam em grupos de familiares e amigos. Caminhonetes
com rapazes na carroceria passavam a toda velocidade pela Grande Rue,
a principal avenida comercial do centro, buzinando e brandindo pedaços
de pau. Cerca de 20 policiais
haitianos circulavam em caminhonetes, assistindo, impotentes. O terremoto,
que segundo se estima pode ter matado 200 mil pessoas, reduziu pela metade
o contingente da polícia. Quando os conflitos entre assaltantes
e saqueadores se tornavam mais violentos, os policiais davam tiros para
o alto com espingardas calibre 12. Os disparos faziam a multidão
dispersar-se por alguns instantes, mas em seguida a atividade era retomada.
Para os mais renitentes, eles apontavam as armas. Duas pessoas foram mortas
a tiros no local, no domingo. Ao sair das lojas,
os saqueadores já iam em busca de compradores para seus produtos.
Um deles oferecia os óculos de sol que havia acabado de saquear.
Um homem abriu a sacola para sua mulher, mostrando o que tinha conseguido:
duas maçanetas de porta. "O que vamos fazer com isso?",
perguntou ela. Abordados pelos repórteres do Estado, invariavelmente
os saqueadores explicavam: "Faço isso porque estou passando
fome." Alguns comerciantes
e seus funcionários, escoltados por policias ou por homens ostentando
facões, tentavam também retirar o que podiam, mas a imensa
maioria das lojas estava à mercê dos saqueadores. Soldados americanos
passavam em jipes Humvees, apenas observando a cena. Noutra operação
destinada a exercer presença para tentar manter a ordem, cerca
de 30 soldados americanos caminhavam ontem pela Cité Soleil, considerada
a maior favela do Haiti. Os milicianos presos nas operações
da ONU lideradas pelo Brasil, em meados da década, fugiram da Penitenciária
Nacional de Porto Príncipe, destruída pelo terremoto, e
voltaram a assumir posições na favela. O Exército
brasileiro aposta na entrega de ajuda humanitária para restaurar
a ordem. Essa é também a visão das autoridades haitianas.
"Se a situação vai explodir ou não, depende
se a ajuda da comunidade internacional virá", disse ontem
Ralph Jean-Brice, comandante da Direção Departamental do
Oeste, sob cuja jurisdição está Porto Príncipe. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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