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Brasileiros
voltam a favela para impedir retorno de milicianos |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Quarta-feira,
20 de janeiro de 2010
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PORTO PRÍNCIPE Os milicianos de Cité
Soleil foram mortos ou presos nas operações das tropas brasileiras,
cujas marcas de balas estão até hoje nos muros da favela.
Depois da destruição da Penitenciária Nacional, e
da fuga de 4 mil presos, os milicianos reapareceram. "A população
tem medo de voltar à situação anterior, que era catastrófica",
disse Ricot Magene, de 30 anos, relações públicas
da Grevha, uma associação de moradores da favela. "Vivíamos
em condições desumanas. Os bandidos saqueavam, violavam,
extorquiam e sequestravam." Depois da queda de
Jean-Bertrand Aristide, em 2004, as milícias tentaram assumir uma
conotação política, declarando-se a favor do ex-presidente.
A Missão das Nações Unidas para a Estabilização
do Haiti (Minustah), criada em 2004, considerava Cité Soleil uma
zona proibida, até que o comando brasileiro decidiu ocupá-la,
obtendo seu controle em 2006. Acredita-se que parte das armas ficou enterrada,
e pode ser recuperada pelos milicianos. "Acredito que
a Minustah e a polícia haitiana conseguirão prendê-los
de novo, mas devem ter muita prudência, para que a população
não seja vítima", pediu Magene. De acordo com o capitão
Marcelo Domingues, comandante de uma das bases na favela, o Exército
conta com a cooperação dos moradores, que passam informações
sobre os bandidos. Depois da fuga da prisão, alguns moradores se
armaram de pedaços de pau e facões e formaram "brigadas"
para enfrentar os milicianos. Eles ajudaram a evitar a invasão
da delegacia de polícia da favela por um miliciano, que pretendia
matar o delegado. O terremoto destruiu
uma das bases do Exército na favela, matando dez militares e deixando
outros seis feridos. Os militares se transferiram para a base comandada
pelo capitão Domingues. Com capacidade para um pelotão,
ela abriga agora quatro. "A presença das nossas bases aqui
é muito importante", disse o capitão. "A população
sabe que não vamos sair daqui. O bandido tem medo." A operação
transcorreu sem incidentes. Armados com fuzis-metralhadoras, soldados
do 28º Batalhão da Infantaria, sediado em Campinas, que mantêm
a base na favela, assumiram posições na área em torno
da escola Dewine Becky, onde seria distribuída a ajuda. Depois
de assegurada a área, dois caminhões com os mantimentos
aproximaram-se, causando uma correria na favela. Em poucos minutos, formou-se
uma fila de 2 mil pessoas: jovens, adultos, velhos e até crianças
se espremiam, formando um cordão compacto. "Só assim
conseguimos alguma coisa", disse uma mulher em creole, a língua
nativa derivada do francês, enquanto entrava na escola, passando
pelo portão fortemente guardado. "Só os americanos
nos ajudam." Déstin Vil-Frantzcéus, um cantor de rap
de 20 anos que mora na favela, explicou: "Eles pensam que todos vocês
são americanos." Por causa de uma distribuição
de chocolates por americanos, ocorridas anos atrás, as crianças
da favela abordam assim os brancos para pedir comida: "Hey, you,
chocolate." Dentro do pátio
da escola, os moradores passavam por um caminhão, recebiam uma
garrafa de água em cada mão, e seguiam para o segundo, onde
colocavam a caixa de 8,5 quilos na cabeça. Os militares vigiavam
a fila, impedindo aglomerações. Mesmo quando o funcionário
haitiano do Exército avisou em creole por um megafone que a comida
tinha acabado não houve distúrbios. Na noite de segunda-feira,
a operação de distribuição de ajuda foi menos
tranqüila. Nove militares em um jipe e um caminhão saíram
distribuindo caixas com enlatados, biscoitos fortificados, leite e água,
para as famílias que perderam suas casas e dormem ao relento, no
bairro de Bel Air, no centro de Porto Príncipe. Os militares tiveram
de usar gás de pimenta para dispersar uma multidão, que
avançou sobre o caminhão. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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