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Embaixada brasileira revela
abismo social do país |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 11 de
outubro de 2009
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TEGUCIGALPA O discurso da resistência
popular e de igualdade une Manuel Zelaya e os assessores
do presidente deposto às pessoas simples que os acompanham. Mas
Zelaya, a primeira-dama, Xiomara, e seus assessores ocupam a ampla sala
do embaixador, duas outras salas, a biblioteca e dois banheiros com chuveiros
mais espaço privado que os outros 50 ocupantes juntos, que
ficam com três banheiros, apenas um com ducha. Há três
categorias de comida: o presidente e seus assessores recebem seus pratos
prediletos, feitos por Margarita, cozinheira dos Zelaya há 30 anos;
os jornalistas compram comida de pronta entrega de um restaurante das
redondezas, paga por colegas que estão de fora; o resto come marmitas
trazidas pelo Comitê de Direitos Humanos. Todas chegam abertas,
pela revista Zelaya, Xiomara, seus
assessores e os jornalistas dormem em colchões de ar e sacos de
dormir. Os outros 40 espalham-se pelos sofás e pelo chão,
porque a polícia não permitiu a entrada de colchões
para eles. O ânimo das
pessoas, a organização e a limpeza poderiam ser bem piores,
considerando o confinamento de três semanas. O jardim é mantido
impecável por Emmo Sadloo, de 53 anos, dono de uma loja de pneus
e rodas esportivas em Tegucigalpa. Nascido na Guiana, naturalizado hondurenho,
Sadloo ainda fala espanhol com sotaque, embora tenha vindo há 34
anos. Sua cabeça
está sempre coberta com um lenço vermelho que diz Mel
(Manuel Zelaya), a vitória é de todos, o povo te apoia.
Sua camiseta, também vermelha, traz um sol com a sigla Alba (Aliança
Bolivariana das Américas, liderada pelo presidente da Venezuela,
Hugo Chávez) e um desenho de Simón Bolívar de frente
para Francisco Morazán, o herói da independência hondurenha.
Sadloo comanda os negócios pelo celular e admite estar preso na
casa. Se eu sair agora, me prendem, diz o comerciante. Estão
negociando para que todas as acusações contra o presidente
e os outros sejam retiradas. ÓCIO CRIATIVO O ócio é
quebrado por muitas distrações. Além das aulas de
aeróbica, dos saraus de música com instrumentos improvisados,
das notícias pelo rádio, das discussões político-ideológicas
e do entra-e-sai de mediadores internacionais, a polícia e o Exército
também oferecem atrações, como a Até Zelaya,
que nunca se expõe na sacada, por medo de francoatiradores,
veio olhar a novidade. Mas, quando um cinegrafista dirigiu a luz de sua
câmera para o grupo que se formou em torno do presidente, a primeira-dama
repreendeu-o: Quer que nos matem? Luis Galdanes, repórter
da Rádio Globo que, apesar de fechada pelo governo de facto por
seu apoio a Zelaya, segue sendo transmitida via internet, foi para a frente
da sacada e começou a provocar os soldados, gritando ao telefone
que os golpistas usavam mercenários. Zelaya
mandou que É o caso de
Fúlvio César Torres, de 60 anos, que trabalhava como mecânico
de uma construtora. Vim ver Mel e não pude sair, diz
ele. Acho que fui demitido, supõe. Não
falei mais com meus patrões, porque são golpistas. Não
sei como estará a situação, se o presidente ocupar
o cargo outra vez. De qualquer jeito, teremos problemas, porque as autoridades
de segurança são golpistas. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |