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Na
mesquita, mistura de ódio e fé |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 16
de abril de 2006
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TEERÃ Na sexta-feira, antevéspera
do aniversário de Maomé, que coincide este ano com o domingo
da Páscoa, cerca de 6 mil homens lotavam o imenso auditório
coberto, com aspecto de ginásio de esportes, reservado para esse
evento semanal. Sentados em grupos sobre fileiras de tapetes, os fiéis
compõem uma espécie de mosaico: uns 300 basidjis, os jovens
guardiães dos costumes islâmicos, com camisetas brancas,
vermelhas e verdes, formam as cores da bandeira iraniana; os militares
do Exército, com suas fardas verde-oliva; os da Marinha e da Força
Aérea, com seus tons diferentes de azul; os homens comuns, atrás;
as autoridades, à frente. Algumas centenas de
mulheres também se reúnem do lado de fora, num canto destinado
a elas, debaixo do sol ardente da primavera de Teerã. O testemunho e o sermão
do dia vão direto ao cerne da grande questão vivida hoje
pelos iranianos: por que o país enveredou pelo caminho sem volta
do esforço nuclear, e o que fazer se a reação americana
for a pior possível. O testemunho do dia
é do general Mohamad Dodraz, comandante do Exército. Ele
conta que, durante a guerra Irã-Iraque (1980-88), tinha um colega
piloto. Ao final de um dia de incursões bem-sucedidas contra o
inimigo, quando começava a voltar à base, o amigo lhe passou
um rádio, dizendo que o céu lhe parecia uma "visão
do paraíso". Em seguida, o piloto foi abatido pelo inimigo.
O testemunho do general é saudado pelos fiéis, em uníssono,
com os dizeres "marg bar Amrika, marg bar Inglis" (morte à
América, morte à Inglaterra). Em seguida, assume o púlpito o aiatolá Ahmed Djanati, presidente do Conselho de Guardiães, encarregado de aprovar as listas de candidatos em todas as eleições e de sancionar ou vetar as leis votadas no Parlamento, verificando se são condizentes com a Sharia, o código legal islâmico. "Esperamos que
este ano tenhamos mais êxitos, assim como tivemos nos últimos
dias", diz ele, referindo-se ao anúncio de terça-feira
do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de que o Irã já é
capaz de enriquecer urânio. "Estamos seguros de que isso é
pelo Profeta Maomé." Ao princípio de cada ano, o establishment
religioso do Irã anuncia a quem ele será dedicado. Este
ano, que segundo o calendário solar persa começou dia 21
de março, está dedicado a Maomé, numa espécie
de desagravo pelas caricaturas dinamarquesas. "Este ano, devemos
imbuir-nos do gênio do Profeta", exorta Djanati. "Todos
temos de dar um passo adiante. É preciso sermos um pouco mais sérios.
Como disseram nosso líder supremo (aiatolá Ali Khamenei)
e nosso presidente, não é hora de seguir um caminho suave.
Temos de ser fortes, aceitar o convite do Profeta", prossegue o mulá.
"É uma glória para nosso povo que nossos filhos estejam
enriquecendo urânio, ampliando a energia nuclear, no ano do Profeta.
Felicito nossos queridos militares, nossos filhos de ouro que têm
defendido a República Islâmica." "Esses êxitos
que acabamos de conseguir, essa alma forte, guarda uma mensagem para a
América", diz o aiatolá. "Ouça-nos, América:
você se embriagou pelo seu poder militar, mas que não lhe
ocorra destruir a República Islâmica do Irã",
adverte. "O Irã é poderoso, não é débil.
Aqui tem um imam (líder espiritual), tem o poder enorme do líder
supremo", diz ele, referindo-se agora ao aiatolá Ruhollah
Khomeini, fundador da república, morto em 1989. "O Irã
não se compara com nenhum outro país do mundo: o povo iraniano
conta com o apoio de Alá e também de sua força juvenil,
esses mesmos jovens que durante os oito anos (da guerra Irã-Iraque)
estiveram na batalha." O aiatolá prossegue,
entre imprecações contra os EUA, paralelos históricos,
citações do Alcorão, detalhes técnicos sobre
o programa nuclear - "o que conseguimos é o princípio
do caminho, porque, para atingir escala industrial, nos falta muito tempo"
- e incursões na política externa: "Esperamos o dia
do triunfo da resistência do Hamas, para reconquistar toda a terra
perdida em Al-Qods ("a Sagrada", como os muçulmanos chamam
Jerusalém)." Djanati volta ao tema
do enriquecimento de urânio: "O dia do anúncio de que
adquirimos a tecnologia nuclear é mais importante que o da nacionalização
do petróleo (20/3/1951)." E encerra com uma recomendação:
"No fim, todos morreremos. Deus queira que possamos ver, ao lado
de nosso cadáver, o Profeta e nossos santos." O aiatolá desce
do púpito para uma rampa abaixo do nível dos fiéis,
em sinal de humildade, e recita versos do Alcorão. Todos se curvam
até a cabeça encostar no chão. "Islã"
quer dizer "submissão". Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |