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O
santuário que exalta o martírio |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira, 17
de abril de 2006
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TEERÃ O edifício
principal possui 72 janelas, representando os 72 homens que morreram com
o imam (mensageiro de Deus) Hussein, na Batalha de Kerbala, no sul do
Iraque, em 680. Hussein e seus seguidores foram imolados por muçulmanos
que negavam o status de sucessor do profeta a ele e a seu pai, Ali, genro
de Maomé, assassinado durante uma oração. O martírio
de Hussein cimentou a separação dos "xiitas" ("partido
de Ali"), do restante dos muçulmanos. Ao lado da cúpula,
uma bandeira vermelha representa o sangue de todos os mártires
xiitas, assim como dezenas de pombas pintadas nas paredes do complexo.
Central na identidade xiita, a noção do martírio
foi ampliada pelo establishment teológico iraniano depois da Revolução
Islâmica de 1979, incorporando também os atentados suicidas.
O Alcorão prevê que os suicidas vão para o inferno.
Pela reinterpretação, aqueles que se explodem para matar
"infiéis" que ameaçam o Islã asseguram
o paraíso para si e seus familiares. A releitura abriu
caminho para as ações do grupo libanês xiita Hezbollah,
a partir de 1982, e do grupo palestino sunita Hamas, criado em 1987; ambos
patrocinados pelo Irã. E acabou assimilada ao redor do mundo, por
grupos como Irmandade Muçulmana, no Egito, e Al-Qaeda, no Afeganistão. Erguido às
pressas depois de sua morte, em 1989, o santuário é uma
obra inacabada, com estruturas metálicas que ainda vão dar
lugar a colunas de concreto e a revestimento "do melhor azuleijo
que há", segundo adiantou um dos guardas que inspecionavam
nossas conversas com os fiéis ("nada de política").
O chão da enorme mesquita é de mármore coberto parcialmente
por tapetes, nos quais homens e mulheres, separados por biombos de plástico,
fazem suas preces. Khomeini, filho e
neto de mulás (sacerdotes), usava turbante preto porque era seyed,
ou descendente direto do profeta. Para os peregrinos do santuário,
o vínculo entre um e outro não poderia ser mais imediato.
"Khomeini está para nossa revolução assim como
o profeta está para o Islã", compara Mohamad Randjba,
um advogado de 40 anos. "O profeta combateu os idólatras.
Khomeini fez o mesmo no Irã." "O imam significa
tudo na vida para mim", resume Hossein Komidjani, de 36 anos, dono
de uma locadora de vídeo em Teerã. "Depois do profeta,
é ele." O que ele fez? "Ressuscitou o Irã. Os
valores religiosos estavam perdidos. Ele os reavivou." Como muitas
famílias, Komidjani acampou com a mulher e os três filhos
no parque que circunda o complexo. Chegaram na noite de sábado
e voltariam na de ontem. "Viemos ficar perto do imam." A cerca de 30 quilômetros dali, no norte de Teerã, há um outro ponto de peregrinação no aniversário do profeta. É a casa onde viveu Khomeini depois que voltou do exílio na França, em 1979, em seguida à derrubada do xá Reza Pahlevi por uma aliança de fundamentalistas e esquerdistas seculares (logo desencantados com a revolução e alienados do poder). No bairro montanhoso de Djamoron, Khomeini instalou-se com sua mulher numa pequena casa alugada, de sala, quarto, cozinha e banheiro. Da sala de 10 metros quadrados, com um sofá, uma pequena mesa e uma estante de poucos livros, Khomeini atravessava, nas noites de quinta-feira, uma plataforma até um pequeno auditório construído à frente da casa, onde fazia o seu sermão semanal. Contendo as orientações
gerais sobre amplo espectro de temas - moral, política interna
e externa -, o sermão era transmitido ao vivo por rádio
e TV. Forrado de tapetes, o pequeno auditório é também
hoje um local de orações, aonde muitos fiéis chegam,
choram e rezam em frente a sua imagem, como fazem os católicos
diante dos santos. Hossein Tolui, de
25 anos, um ex-lutador de judô que está estudando para entrar
na universidade, tem uma recordação especial deste lugar:
aos cinco anos, veio com o irmão adulto, professor de teologia,
e outras crianças, visitar o imam, depois que um passeio pela montanha
de Kolakchar foi cancelado. "Pedimos permissão para visitar
o imam e, como era muito amável, mágico, nos recebeu com
muito gosto, pessoalmente. Ele conquistava pelo coração",
recorda. "Vim celebrar o aniversário do profeta aqui porque
Khomeini representa, hoje, o que Maomé representou em seu tempo." Para os xiitas, Khomeini
trouxe a mensagem de Deus enquanto não reaparece o 12.° Imam,
o Oculto, esperado por eles. Muitas coisas mudaram,
desde seu tempo. A simplicidade do lugar onde viveu contrasta com o santuário
erguido pelo regime para o seu descanso. O aiatolá Ali Khamenei,
também um seyed, que o substituiu como líder supremo, vive
e trabalha num imponente e inacessível complexo, que ocupa quatro
quintos de um grande quarteirão, no centro de Teerã. O Palácio
de Mármore, do xá, "espreme-se" no outro quinto. Mas a palavra do líder supremo, agora Khamenei, continua indisputável. E o martírio, no centro de todas as mensagens. "As ameaças americanas não nos assustam", diz Komidjani, na frente de sua barraca, no parque do santuário. "Eu era muito jovem e lutei na guerra. Agora, meus dois filhos adolescentes, e até o de cinco anos, gritam 'morte à América'. Esta geração não tem medo da guerra." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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