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Este
casal quer ser mártir pelo Irã |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Terça-feira, 18
de abril de 2006
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TEERÃ Do ponto de vista
material, a família tem uma vida confortável na Alemanha.
Ele trabalha como autônomo, instalando equipamentos eletrônicos.
Ela é empregada numa indústria automecânica, como
inspetora de segurança. Tem curso técnico de nível
médio. Ele fazia medicina na Alemanha, quando interrompeu os estudos,
no início da década de 80, para vir defender o seu país,
na guerra contra o Iraque apoiado pelos Estados Unidos e outras potências
ocidentais, que desejavam conter o fundamentalismo iraniano. Foi a sua primeira
experiência com a disposição de morrer por seu país.
Mais de 20 anos depois, o Irã o atrai de volta, desta vez casado
e pai de duas filhas adolescentes. No início da tarde de ontem,
o casal entrou no stand do Comitê de Promoção dos
Mártires do Movimento Global Islâmico, montado no interior
da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Famoso pela crise
dos reféns americanos de 1979, um dos momentos mais emblemáticos
da Revolução Islâmica, o prédio, apelidado
de Laneh Djasusan, ou Ninho de Espiões, agora abriga exposições
de ideologia iraniana, como a que está em cartaz agora, dedicada
aos palestinos. O casal não
chegou aqui por acaso. Ao contrário, sua entrada no stand é
uma atitude refletida, precedida por anos de conversas. Os dois se sentam
à mesa colocada à frente do stand. Ao seu lado, um cartaz
cheio de fotos celebra: "Saudação aos corpos despedaçados,
oh buscadores do martírio; 55 palestinos buscadores do martírio
infligem 1.500 baixas sionistas." Sacam canetas e preenchem,
ajudados por um funcionário, suas fichas de inscrição.
O marido está alegre. Seus gestos são naturais. A mulher
está tensa. Muitos pensamentos parecem cruzar sua mente, quando
o repórter do Estado os começa a bombardear de perguntas. Por que decidiram
ser voluntários ao martírio? "Eu amo a vida",
começa o marido, que, como a mulher, fala alemão fluente.
"Há tudo de bom: água, flores, mulheres bonitas. Mas,
a que preço?" A mulher explica: "Quando vemos a situação
dos outros muçulmanos, não podemos fechar os olhos. São
minha família. Então, quero lutar. Deus nos deu tudo para
usufruir. Mas nem todos podem usufruir. E não posso pensar só
em mim." E como essa visão
altruísta se converteu numa opção por um atentado
suicida? "No caso dele, a juventude já teve uma ligação
direta com a guerra", diz a mulher. "Para mim, isso veio gradualmente,
com doutrina, com ideologia. Estudei muito sobre o sionismo." A conversa se atém
a aspectos práticos. Em que implica exatamente a sua assinatura
naqueles papéis? "Escrevemos que estamos prontos para tudo",
responde a mulher. Quer dizer que o Comitê escolherá qual
será sua missão? "Eu quero optar", responde ela.
Terminadas as férias, o casal voltará para a Alemanha, e
aguardará um contato do Comitê. E suas filhas já
sabem dos planos de seus pais? "Conversamos com elas sobre isso,
na linguagem que elas compreendem, na idade delas", conta a mãe.
E o que elas acharam disso? "Elas simplesmente pensam como nós.
Têm formação islâmica. Para os muçulmanos,
isso é o correto. Assim como a própria Bíblia diz:
'Amai ao próximo como a ti mesmo.'" E o casal imagina
que, no futuro, as filhas possam ter a mesma atitude? "Tenho esperança
de que elas também pensem como nós", responde a mulher
turca, que nasceu sunita e se converteu à corrente xiita, para
se casar com seu marido iraniano. "Somos todos muçulmanos:
irmãos e irmãs." A mulher continua:
"Não temos nenhum problema com judeus nem com cristãos
fiéis. Isso está escrito no Alcorão. O sionismo é
outra coisa. Não é religião." E um menino judeu
em um ônibus em Tel-Aviv, que pode ser explodido a qualquer momento
por um "mártir" como eles? Tem culpa pelo sionismo, ou
pela ocupação dos territórios palestinos? "E
os meninos palestinos? Também não têm direito de viver?",
rebatem os dois ao mesmo tempo. "Quem está errado? Quem ocupou
primeiro a terra de quem?" E em que explodir-se
vai resolver o problema? "O que você propõe, então?",
pergunta a mulher. "Ficar quieto? Escrever um livro? Não adianta
nada. Temos que fazer alguma coisa." O repórter questiona
se esse é o melhor caminho, do ponto de vista político.
"Você acha que o Hamas caiu do céu?", pergunta
o homem, referindo-se ao grupo radical islâmico que mais explode
homens e mulheres-bomba na Palestina, e que venceu as eleições
parlamentares de janeiro. "A maioria dos palestinos votou nele, porque
não vê outra saída." Do plano político,
a conversa salta abruptamente para um plano pessoal. "Não
somos nenhuns bárbaros", diz a mulher. "Tudo o que pedimos
é: nos deixem em paz. Na Alemanha, me perguntam na rua por que
estou usando este véu. Eu nunca perguntei a ninguém por
que traz uma cruz no peito. Somos minoria lá." O homem intervém:
"A polícia alemã protege as sinagogas, mas não
as mesquitas. Na TV alemã, só se fala em Holocausto, ninguém
fala dos mortos na Palestina." Ele conclui, levantando-se: "Também
temos sentimentos. Também temos filhos." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |