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A
difícil arte de namorar no Irã |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado, 22
de abril de 2006
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TEERÃ Uma blusa feminina
que nao chega ao joelho, sobre a calça (pernas de fora, nem pensar),
um penteado masculino muito ousado podem ser as senhas para barrarem os
jovens no portão de entrada. "Na verdade, não faço
idéia do critério deles", diz uma freqüentadora
de 26 anos. "Acho que às vezes eles simplesmente não
vão com a cara da pessoa." Na manhã de ontem, em poucos minutos de observação na entrada, duas moças não puderam entrar porque suas batas não eram suficientemente longas e sete rapazes também tiveram de voltar, por nenhuma razão aparente. Suas mochilas nem chegaram a ser abertas. Quando são, uma garrafa de bebida alcoólica, proibida porém contrabandeada nas cidades, é detenção na certa. Passado o teste, os
jovens adentram o equivalente ao éden - para padrões iranianos.
"Aqui, podemos
nos abraçar", diz uma professora de inglês de 31 anos,
ao lado do marido, de 35, importador de peças para tratores. Casados,
com uma filha de cinco, estão proibidos, como todos os casais,
de manifestar carinho em público. Em Tochal, apesar da presença
ostensiva da polícia (há até uma unidade que se locomove
em esquis, para vigiar os outros esquiadores) e dos basidjis, as trilhas
sinuosas permitem alguma privacidade. E beijar, pode? O
casal ri da pergunta inocente. Numa tarde recente, um casal de amigos
foi detido por estar se abraçando e beijando, dentro de seu carro,
num estacionamento, em Teerã. Embora também sejam casados,
foram levados à delegacia e obrigados a firmar um termo de compromisso
de que isso nao se repetirá. Muitos casais têm
histórias como essa, incluindo nossos interlocutores. Quando eram
noivos, há 15 anos, voltavam de carro de uma noite de Natal na
casa de amigos cristãos, quando foram parados numa blitz de basidjis.
Não traziam sua certidao de noivado. Decidiram detê-los.
O hoje marido reagiu, e foi levado para a delegacia à força.
"Eu não parava de chorar", lembra a mulher. Ficaram horas
na delegacia e tambem só saíram depois de assinar o tal
termo de compromisso. Em caso de reincidencia, estão sujeitos a
multa. Se bem que também
é possível resolver essas situações subornando
os policiais, contam os moradores de Teerã. Até para se
fazer uma festa em casa (nao há danceterias, e músicas e
danças ocidentais são proibidas, assim como casais sem documentos
ao menos de noivado), é possível evitar que a polícia
venha incomodar pagando propina a um delegado. Nos teleféricos e nas trilhas de Tochal, corria ontem a informação de que a polícia ou os basidjis recrudesceriam nos controles nas ruas. "Ouvimos falar que começaria amanhã (hoje), não sabemos se é verdade", disse um casal. "Eu sou religiosa, rezo e faço o jejum (no mês do Ramadã), mas nao acho que cobrir todo o corpo seja um mandamento de Deus", diz uma mulher casada. Nos últimos quatro anos, houve um afrouxamento do controle, sob o governo do ex-presidente Mohamad Khatami, que introduziu tímidas porém sentidas reformas liberais. Com a eleição, no ano passado, do presidente Mahmoud Ahmadinejad, apoiado pelos basidjis e pelo clero conservador, a classe média temeu um retrocesso. O receio, confirmado
pelas notícias que circulam em Teerã, é o de que,
com a hipótese de os Estados Unidos estarem planejando uma mudança
de regime no Irã, as autoridades considerem que seja hora de aumentar
a repressão interna dos descontentes. "É só você ir para a delegacia que logo se lembrará de como usar o chador", dizia ontem um jovem a uma amiga que afirmava não saber mais usar o véu e vestido, comumente preto, que cobre da cabeça aos pés. Enquanto a repressao não vem, ou mesmo se ela vier, Tochal continua sendo o lugar onde, numa curva ou desnível de terreno, os moradores de Teerã podem experimentar pequenas liberdades com sabor de transgressão. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |