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Irã
aproveitou 'exaustão' dos EUA para lançar desafio nuclear |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 23
de abril de 2006
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TEERÃ Na verdade, as aspirações
nucleares do Irã não são de agora. O programa foi
lançado em 1968 pelo xá Reza Pahlev, um bom amigo dos Estados
Unidos. A reação americana ao surgimento de uma potência
nuclear perto de Israel não foi diferente da atual. O Irã
- como o Brasil - recorreu à Alemanha. Com a Revolução
Islâmica de 1979, os alemães abandonaram o barco. A então
União Soviética assumiu seu lugar. O reator de Bushehr,
no sudoeste do Irã, é resultado disso. Com 11% das reservas
reconhecidas de petróleo do mundo e 15% das de gás, o Irã
realmente precisa de energia nuclear? Parece que sim. O país consome
42% do petróleo que produz, e essa fatia aumenta a cada ano. Estima-se
que, em 2020, não sobrará mais petróleo para exportar.
O gás, assim como as hidrelétricas, respondem pelo consumo
de energia e aquecimento. Segundo o governo, essa matriz restringe o crescimento
industrial do país. O Irã quer exportar mais petróleo
e mais gás, substituindo-os pela energia nuclear. Paralelamente, o Irã,
signatário do Tratado de Não-Proliferação
Nuclear, incursionou, em 1987, no mercado negro dos componentes da indústria
nuclear. Foi flagrado em 2003 pela Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA). Em janeiro, o presidente Mahmoud Ahmadinejad mandou
romper os lacres da AIEA na central de enriquecimento de urânio
de Natanz, a noroeste de Teerã. No dia 11, anunciou que o Irã
tinha completado o ciclo, em escala experimental. Até o fim do
ano, pretende atingir escala industrial. Sempre com fins pacíficos. O presidente George
W. Bush avisou que os EUA não tolerarão um Irã nuclear.
A atitude desafiante de Ahmadinejad aborreceu até os tradicionais
aliados do Irã, como Rússia e China. É engano atribuir
tudo isso a Ahmadinejad. Dele é apenas o estilo. Esse tipo de decisão
cabe ao aiatolá Ali Khamenei, "líder espiritual",
equivalente a chefe de Estado na teocracia iraniana. "Khamenei decidiu
transformar o Irã numa potência nuclear", diz o analista
político Saidi Laylaz. O estilo de Ahmadinejad é quase um
impedimento. Suas declarações sobre "varrer o Estado
sionista do mapa" dificultam os planos nucleares iranianos. Os mapas explicam
por que o escudo nuclear seria vital para o Irã. Três quartos
de suas fronteiras são com países "diretamente dominados
formal e militarmente" pelos EUA, aponta Laylaz: Turquia, Iraque,
Arábia Saudita, Paquistão e Afeganistão, além
do Golfo Pérsico, patrulhado pelas esquadras americanas. Sobram
o Azerbaijão e o Turcomenistão, aliados dos EUA, e o Mar
Cáspio. Ainda no início
do seu primeiro mandato, em janeiro de 2002, Bush incluiu o Irã
em um suposto "Eixo do Mal", ao lado do Iraque e da Coréia
do Norte. Hoje, o Iraque está ocupado. A Coréia do Norte
se assumiu como potência nuclear. "Entre o suicídio
e a morte, o Irã preferiu tentar uma última chance",
diz Laylaz. Dois outros analistas independentes iranianos, que preferem
não ter seus nomes publicados, concordam que simplesmente não
havia alternativa. Por que agora? Os Estados Unidos
estão virtualmente exauridos no Iraque. As lideranças xiitas
mais respeitadas no Iraque provêm do exílio no Irã.
"O governo iraniano ainda nem explorou o potencial desestabilizador
dessas lideranças", avalia um analista. "Os xiitas ainda
não se levantaram." Além disso, há uma percepção,
no Irã, de que o presidente Bush está politicamente debilitado
no plano doméstico. O Tesouro iraniano
tem os cofres cheios. O presidente anterior, Mohamad Khatami, um reformista
moderado, recebeu o país endividado em 1997, e o entregou, no ano
passado, com reservas de US$ 20 bilhões, e sem dívidas.
Sua ortodoxia econômica custou a eleição aos candidatos
reformistas e moderados. Ahmadinejad se elegeu com a promessa de "levar
o dinheiro do petróleo para a mesa dos pobres". Com o barril
de petróleo na casa dos US$ 70, as exportações somam
US$ 50 bilhões ao ano. E Ahmadinejad cumpre
sua promessa. "Pela primeira vez em 27 anos, alguém nos escuta",
diz Shahla Shatie, líder da associação dos aposentados.
"Estamos tão felizes com o presidente." Não é
para menos. O governo aumentou a aposentadoria de 1,180 milhão
de rials (US$ 130) para 4 milhões (US$ 440). Os subsídios
são generosos. O litro da gasolina não atinge os US$ 0,20,
os alimentos são baratos, os funcionários de muitas empresas
ganham os bilhetes de trem e metrô, o preço da passagem de
ônibus urbanos é ínfimo. Ahmadinejad não
é apenas populista. É popular. "Eu o compararia a Hugo
Chávez", diz um professor de ciência política
da Universidade de Teerã. O presidente também
não tem problemas no Parlamento. O Conselho de Guardiães,
controlado pelo clero conservador, vetou dezenas de candidatos de oposição,
pavimentando uma sólida maioria governista no Parlamento. Os dois
blocos - direita e esquerda, como são chamados - têm disputas
sobre a condução da economia. O primeiro é mais liberal.
O segundo, mais estatizante. Em questões de Estado, como o programa
nuclear ou a política externa, o apoio é unânime.
Os militares também
estão com o governo, que os mantém contentes entregando-lhes
os contratos mais gordos nos setores de petróleo, petroquímica
e infra-estrutura. Para que os repassem, com os devidos benefícios
da intermediação, para joint ventures entre companhias multinacionais
e empresas locais criadas especificamente para cada contrato. Entretanto, dizem
os analistas, a liderança espiritual e o governo sabem que a bonança
não é para sempre. Quando disse, na semana passada, que
o petróleo ainda está barato, Ahmadinejad não estava
apenas fazendo mais uma de suas provocações. Estava sendo
sincero. O governo iraniano mantém baixo o nível de exigências
dos contribuintes cobrando muito poucos impostos. Sua fonte de renda é
o petróleo. E as demandas - da população aos militares
- para que abra os cofres continuarão. "Um barril a US$ 40
seria o colapso do regime iraniano", acredita Laylaz. Assim, o programa
nuclear iraniano é uma resposta múltipla para os problemas
do governo. Como gerador de energia, libera o petróleo e o gás
para a exportação. Como gerador de crise, eleva o preço
do petróleo e, com ele, as receitas do Irã, quarto maior
produtor e exportador do mundo. Como gerador de dissuasão, promete
uma proteção considerada crucial diante das ameaças
que rondam o país. Isso, se não acabar por concretizar essas
ameaças, numa ação militar americana. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |