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Ameaça
externa fortalece aiatolás |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 23
de abril de 2006
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TEERÃ Entre diplomatas ocidentais
- encarregados não só de informar seus governos, mas também
de embarcar mulher e filhos na hora certa -, há os alarmistas e
os sóbrios. Cada um com seu fragmento de informação.
Os mais nervosos dizem que os EUA bombardearão as instalações
nucleares iranianas em julho. Os mais calmos acham que não haverá
ataque. Julho é verão
no Irã. As noites são claras. Supõe-se que isso seja
bom para os bombardeiros. O timing diplomático também estaria
maduro. As gestões européias estariam esgotadas - e desmoralizadas.
"Os Estados Unidos terão provado que as críticas européias
à invasão do Iraque eram infundadas", diz um observador.
O método americano se legitimaria politicamente. "Não haverá
ataque americano", diz o embaixador em Teerã de um país
aliado dos EUA. "Os americanos sabem que isso levaria a uma escalada
incontrolável." Esse é o ponto em comum entre os dois
grupos de analistas: um ataque americano, por mais cirúrgico que
fosse, desataria uma cadeia de reações difícil de
conter. "O cenário é o de Sarajevo, 1914", dramatiza
um diplomata, referindo-se ao atentado que desencadeou a 1.ª Guerra
Mundial. "Qualquer desdobramento é possível",
acrescenta o diplomata, que aposta num ataque americano em outubro. Nos meios diplomáticos
de Teerã, corre uma versão de que os Estados Unidos tentariam
inverter a equação formulada em 2003. Dessa vez, tentariam
"chegar a Bagdá via Teerã". Ao derrubar o regime
fundamentalista islâmico, os americanos neutralizariam, também,
a sua influência sobre os grupos xiitas no Iraque. As condições
para a chamada "mudança de regime", no entanto, parecem
muito longe de estarem dadas. Não tanto pela aceitação
do regime teocrático nem sequer pela popularidade do presidente
Mahmoud Ahmadinejad. Mas porque, até entre aqueles que se opõem
ao regime e ao governo, a idéia não parece promissora. "Há
um ditado persa: é melhor o mal conhecido que o bem por conhecer",
diz um analista iraniano. Mesmo os iranianos
de classes média e alta aborrecidos com o regime lembram a experiência
frustrante da própria Revolução Islâmica, que,
depois de gerar expectativas, colocou no lugar da monarquia um regime
pior, na sua visão. Até aqui, a
simples hipótese teve um efeito concreto: fortaleceu os instintos
mais conservadores do governo de Ahmadinejad. Conforme prometido, a polícia
começou ontem à noite a reprimir as mulheres que não
seguem o estrito código de vestuário imposto pelo regime.
Foram montadas blitze na Rua Jordan e na Avenida Valya-e-Asr, numa área
de classe média no norte de Teerã, por onde passam muitos
jovens de carro, paquerando. Os policiais examinavam as roupas e mandavam
abrir os porta-malas, em busca de bebidas alcoólicas, que são
proibidas, e drogas. O curioso do hedjab,
como é conhecido o mandamento de cobrir a cabeça e usar
um vestido ou bata comprida sobre a calça para esconder completamente
as curvas do corpo, é que ele é bem-visto por muitos homens
de classe média considerados intruídos, e rejeitado pela
maioria das mulheres nesse extrato. "O hedjab serve para proteger
as mulheres", diz Mohamad Moaien, 21 anos, estudante de direito na
Universidade de Teerã. "Só não estamos de acordo
com torná-lo uma obrigação", emenda seu colega
Ghossein Sadeghi. "Isso só afasta as pessoas da religião." "Deveria ser
uma escolha pessoal", opina Razieh Eslami, de 22 anos, também
aluna do direito. "Achamos esse governo simplesmente ridículo",
resume sua colega Setareh Rosham. "Eles acham que estão no
tempo da Revolução Islâmica." Ao reforçar
suas bases conservadoras, Ahmadinejad pode romper o tênue equilíbrio
entre o apoio de seu reduto político e do clero, de um lado, e
a tolerância das classes média e alta, de outro. "O
ímpeto reformista neste país é um leão adormecido",
compara o analista Saidi Laylaz. "Acordá-lo seria um erro
fatal." As intenções americanas de mudar o regime podem ser inócuas. As conseqüências da reação do regime iraniano a essa ameaça é que podem ser imprevisíveis. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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