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Irã: progresso
muda vida no campo |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 7
de maio de 2006
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SENJ O que todos sabem
é que os avós de seus avós nasceram ali. E que a
mesquita, que só recebe um mulá nas celebrações
do Ramadã, o mês sagrado muçulmano, ocupa o lugar
onde, num passado longíquo, havia um templo zoroástrico,
a religião dos persas antes da conquista árabe do século
7.º. Como seus ancestrais, os moradores de Senj vivem do pastoreio
de cabras e ovelhas e do cultivo de nozes, maçãs e cerejas,
e moram em casas de adobe branco da argila do lugar. O progresso, na visão
da maioria, começou a chegar com a Revolução Islâmica
de 1979. Há cerca de 20 anos, foi aberta a sinuosa estrada sobre
o penhasco, ligando Senj às outras artérias que desembocam
na rodovia para Teerã. Há cinco ou seis anos, chegou a eletricidade,
que aposentou as lamparinas de querosene e trouxe o rádio e a televisão.
"A vida tem mudado muito", atesta Mussa Bastani, de 51 anos.
"Os programas de rádio e TV modificam nossa visão das
coisas." Na geração
de seus pais, o marido não chamava a mulher pelo nome, e a voz
dela não podia ser ouvida, na frente de visitas. Quando ainda não
tinham filhos, o marido chamava a mulher com um "Escuta!"; depois
dos filhos, com "Mãe de fulano (ou fulana)!". Mussa e
seu primo Shir Mohamad tiveram seus casamentos arranjados pelos pais.
"Nossos filhos escolheram as próprias esposas, com nosso consentimento",
compara Shir, de 55 anos. Antes da Revolução
Islâmica, na zona rural, as famílias já se impunham
o hejab, a norma islâmica que obriga as mulheres a tampar todas
as partes do corpo, incluindo os cabelos. "Hoje em dia, os jovens
já não querem saber do hejab", observa Shir. Longe
dos controles da polícia das grandes cidades, as moças iranianas
se sentem mais à vontade no campo para deixar os cabelos à
mostra, numa inversão que dá à zona rural uma aparência
menos austera do que a urbana. É como se os
camponeses do Irã, ou pelo menos os de algumas regiões,
já tivessem ultrapassado a Revolução, na sua esfera
moral. E agora anseiam também por mais, no plano material. "Fomos para as
ruas de Karaj (a 50 quilômetros de Senj) protestar a favor da Revolução",
contam os primos Mussa e Shir Mohamed. "A gente do imam Khomeini
prometia coisas boas para nós, como nos dar o dinheiro do petróleo,
construir estradas e trazer eletricidade." Com a Revolução,
o Irã se urbanizou drasticamente, invertendo a relação
de um terço de população urbana para menos de um
terço de população rural. Não só pela
urbanização da zona rural, mas pelos benefícios aos
imigrantes do êxodo rural, como moradia, alimentação
e transporte. "O presidente
Mahmoud Ahmadinejad (eleito no ano passado) prometeu reconstruir os vilarejos,
abrir uma estrada para o norte de Teerã e aumentar os salários
dos nossos filhos que trabalham nas fábricas", diz Shir Mohamad.
"Ainda estamos esperando para ver o que vai acontecer. Os políticos
não ouvem o que dizemos." Abdullah Hosseini, de 65 anos, também
está cético: "Ahmadinejad está dando nosso dinheiro
para os iraquianos, afegãos e palestinos, não para nós",
diz ele. Ao que Hobatollah Bastani, de 73 anos, contesta: "Tenho
fé de que o presidente vai cumprir suas promessas. Só precisamos
que ele asfalte a estrada. O resto, pedimos a Deus." Hosseini, o mais crítico,
valoriza o fato de o presidente anterior, o reformista moderado Mohamad
Khatami, ter dado mais "liberdade" para o povo. "Mas na
economia ele não conseguiu fazer nada." Hosseini questiona
também os benefícios da Revolução. "Na
época do xá (Reza Pahlevi) vivíamos melhor",
diz ele. "Nosso dinheiro valia mais." Seifollah Bastani, de
68 anos, discorda: "Antes da Revolução, não
faziam nada para nós. Estamos satisfeitos com esse governo." Hosseini garante que
a estrada de acesso ao lugarejo onde vive foi construída por um
francês chamado Schneider, que veio, antes da Revolução,
explorar uma mina de urânio numa montanha a uma hora de carro de
Senj. Hosseini trabalhava para Schneider, que retirou "muito urânio"
da mina, numa joint venture com o governo do xá, que firmou acordos
nucleares com os EUA e a França em meados dos anos 70, cancelados
depois da Revolução. Se os moradores de
Senj divergem sobre o passado, concordam sobre grandes temas do presente.
"A energia nuclear é necessária", diz Hosseini.
"Não podemos desperdiçar nossos recursos. Também
deveríamos aproveitar o potencial hidrelétrico deste rio."
E quanto a uma possível
reação militar dos EUA? "Eles apoiaram o Iraque na
guerra (1980-88), quando o Irã praticamente não tinha armas,
e não conseguiram fazer nada", lembra Seifollah. "Agora,
estamos muito poderosos, e vão conseguir menos ainda. Se eles têm
aviões, nós também temos. Um povo que tem fé,
que crê no martírio, pode enfrentar qualquer um." Seu
primo Hobatollah concorda: "Não temos medo de avião,
de tanque, de nada." Os sentimentos dos
bravos moradores de Senj são parecidos aos de Teerã e possivelmente
de todas as partes do Irã. Independentemente de defeitos e virtudes
do regime fundamentalista e do governo Ahmadinejad, eles não aceitam
que estrangeiros se metam na sua vida. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |