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Linha dura frustra
'Primavera de Teerã' |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quarta-feira, 17
de junho de 2009
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TEERÃ O episódio,
no comício de encerramento da campanha do candidato moderado Mir
Hossein Moussavi, num estádio de futebol de Teerã, no dia
9, diz muito sobre a encruzilhada em que os iranianos se encontraram nessas
eleições. Os partidários de Moussavi - ele próprio
com credenciais impecáveis de conservador, primeiro-ministro entre
1981 e 1989, na fase mais radical da Revolução Islâmica
- representavam um espectro ideológico amplo, unidos pela rejeição
ao presidente Mahmud Ahmadinejad. Para muitos de seus
eleitores, sobretudo os mais jovens, Moussavi não era um candidato,
com um passado e uma proposta. Era uma oportunidade de extravasar, de
sair às ruas e expressar impunemente sua alegria e até mesmo
algo impensável: sua sensualidade. "Isso que está acontecendo
aqui é totalmente incomum", repetiam muitos iranianos. A festa
em que se transformou a campanha de Moussavi entrou para a história
como "a Primavera de Teerã". Em setembro de 2007,
no debate com estudantes da Universidade de Columbia, em Nova York, Ahmadinejad
respondeu a uma pergunta sobre homossexualismo que se tornaria antológica:
"No Irã não temos homossexuais, como no seu país."
A frase sintetiza a atitude intelectual de negação na qual
os iranianos em geral e os conservadores em especial se resguardam. Eles
tentam ignorar que no Irã se faz sexo fora do casamento, celebram-se
festas com dança, bebidas e drogas, ouve-se música pop,
há homossexuais e travestis, entre outras inúmeras práticas
"antiislâmicas". David Fari, dono de
uma distribuidora de medicamentos para tratamento de viciados em heroína
e cocaína, conta que em média surgem dez clientes novos
por dia, em busca de seus frascos com 50 comprimidos, vendidos a US$ 100.
"São homens, mulheres, todo tipo de gente", diz Fari.
"Há um problema muito grande de drogas no Irã, como
noutros lugares do mundo." Os iranianos são
visivelmente vaidosos. É comum as mulheres e até os rapazes
aparecerem com um esparadrapo no nariz, denunciando recente cirurgia plástica.
Circula no país uma estatística segundo a qual as iranianas
são as maiores consumidoras per capita de cosméticos do
mundo. A artificialidade
do uso do véu se nota nos aviões que fazem as rotas internacionais
para o Irã. Antes mesmo de decolar, a maioria das mulheres retira
o pano da cabeça, e só volta a colocá-lo quando aterrissa
de volta no país. Pode-se argumentar que passageiras de vôos
internacionais não representam a maioria da população.
Mas mesmo em algumas regiões da zona rural, longe dos bassijis,
a milícia que impõe os costumes nas ruas das grandes cidades,
pode-se ver mulheres com os véus abaixados e roupas mais descontraídas. Há três
décadas, dois terços da população iraniana
vivia no campo. A Revolução Islâmica representou o
seu ideário religioso conservador, além do ódio ao
regime do xá Reza Pahlevi. Trinta anos depois, resta apenas um
terço na zona rural. Como resultado da própria Revolução,
que levou o rádio, a televisão, a eletricidade e estradas
ao campo, há uma nova geração menos conservadora.
Para o clero que o sustenta, a função de Ahmadinejad, com
seu estilo populista, é reaproximar o regime do povo. Isso não quer
dizer que os iranianos não sejam religiosos. Ao contrário.
Apenas muitos deles não compartilham da severidade dos aiatolás,
e aspiram ardentemente por mais liberdade. No seu livro Hidden Iran (Irã
Escondido), Ray Takehy faz a seguinte distinção: os conservadores,
a começar pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da
Revolução de 1979, acreditam que a religião tenha
de ser imposta contra a vontade do povo, que não a deseja espontaneamente;
já os reformistas acham que o povo anseia por ela, e que sua imposição
provoca a sua rejeição. Com o anúncio do resultado das eleições presidenciais, de sexta para sábado, a energia que os jovens extravasavam nas ruas em forma de festa converteu-se em fúria. A esperança de mudança dentro do sistema parece ter dado lugar à sua rejeição por completo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |