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O que sobrou da
biblioteca é levado para mesquita |
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LOURIVAL SANTANNA |
Sexta-feira,
18 de abril de 2003
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BAGDÁ - Uma das expressões mais sombrias dos impulsos bárbaros que essa guerra liberou está num lugar chamado Al-Mathef al-Watani al-Iraqi - a Biblioteca Nacional Iraquiana. Aqui, um dos mais ricos patrimônios culturais da humanidade, um acervo de 5 milhões de manuscritos, livros e microfilmes contando a história do berço da civilização, deu lugar a um monte de cinzas. O sólido prédio de concreto foi carbonizado pelo fogo ateado por saqueadores no dia 8, quando os americanos tomavam de assalto a capital. Entre as preciosidades perdidas, está um exemplar do Alcorão escrito à mão por Ali, o quarto califa, sobrinho e genro do Profeta Maomé, no século 7.º. Os manuscritos remontam a civilizações da Antigüidade, como a babilônica, suméria e assíria. Dois caminhões foram estacionados ontem de manhã na frente da biblioteca, e rapazes maltrapilhos carregavam desajeitadamente, com as mãos sujas de carvão, os manuscritos, livros e caixas de microfilmes, deixando alguns cair no chão. "É melhor isso do que deixá-los queimar", disse ao Estado o xeque Said Monien el-Moussawi, um dos líderes espirituais da comunidade xiita, 70% da população iraquiana. El-Moussawi acusa o Mossad, o serviço secreto israelense, de ter causado o incêndio. "Nenhum iraquiano faria isso", argumentou o xeque. "Eles roubam, mas não queimam." O diretor da biblioteca, Hussein Saleh Jamil, é mais cauteloso: "Simplesmente não sei quem fez isso, nem por quê." Jamil, no entanto, responsabiliza os americanos: "Eles tinham de ter mandado soldados para cá para protegê-la." Meses antes da guerra, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) alertou os Estados Unidos para a importância do patrimônio histórico guardado no Iraque, apontando especificamente os locais que deveriam ser não só poupados dos bombardeios, mas protegidos. Os que não foram bombardeados, foram deixados à mercê dos saqueadores e vândalos. O que sobrou do incêndio na biblioteca - e visivelmente não foi muito - está sendo levado para a Mesquita Imam al-Haq, no bairro xiita de Al-Thawra, norte de Bagdá. "Lá, estará a salvo", promete El-Moussawi, explicando que a decisão de transferir o acervo foi tomada pela Hauze en-Najaf, a máxima instituição teológica xiita no Iraque. Claro que não havia ali apenas documentos muçulmanos, mas também judeus e cristãos. Agora, ironicamente, os que tiverem sobrevivido ao roubo e ao fogo serão guardados numa mesquita. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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