|
Falta de segurança
faz com que poucos candidatos saiam às ruas |
|
|
LOURIVAL SANTANNA |
Quinta-feira, 4 de março de 2010
|
|
BAGDÁ Quando saem às
ruas para pedir votos, os candidatos iraquianos normalmente não
se dirigem aos eleitores em geral, mas apenas aos chefes tribais, que
são os que determinam o voto dos demais dentro de suas extensas
famílias de milhares de pessoas, vinculadas pelo mesmo sobrenome
e pelos casamentos entre primos. Em muitos casos, por razões de
segurança, essas reuniões acontecem em recintos fechados,
preferencialmente nos auditórios de hotéis fortemente guardados. Nos últimos
cinco dias, só no Hotel Al-Mansour ocorreram dois encontros desse
tipo, um com o primeiro-ministro Nuri al-Maliki, que recebeu o apoio de
líderes tribais de várias regiões do país,
e outro com o ministro do Petróleo, Hussein al-Shahristani, que
falou para cerca de 200 líderes tribais de Kargh, a parte oeste
de Bagdá. Em sinal do prestígio do ministro, compareceu
também o chefe do Conselho Tribal de Rossafa, que representa o
lado leste da cidade. Alguns poucos, no entanto, saem ao ar livre. É o caso do xiita secular Muttalibi, que foi ontem pedir votos nos bairros xiitas de Abu D'sheer e Al-Hurria. Ao lado de Sadr City, esses bairros fazem parte de um cinturão de pobreza e violência na periferia de Bagdá onde nem a polícia iraquiana e muito menos soldados americanos gostam de estar. Al-Muttalibi deixou seu escritório - que lhe serve também de casa, para evitar movimentações arriscadas e desnecessárias - ao meio-dia com uma pistola cromada em uma das mãos, que passou ao seu motorista assim que entrou no carro. "Tenho três (fuzis) AKs em casa", contou Muttalibi, que é também membro do Conselho de Segurança Nacional. "Embora o governo tenha confiscado centenas de milhares de armas, há outros centenas de milhares com os cidadãos. Mas a situação não é tão ruim quanto antes." Além do motorista, um jovem assessor que fazia as vezes de fotógrafo acompanhava o candidato. "Não gosto de muitos carros em comboio. Ser discreto é mais seguro", disse o candidato já a caminho de Abu D'aheer, um bairro xiita cercado por outro maior, sunita, de onde são disparados, com frequência, morteiros da Al-Qaeda. No caminho, havia
um jipe Humvee do Exército americano que acabava de ser atingido
por um explosivo colocado na estrada. O artefato doméstico fez
apenas afundar a lataria do jipe, que ficou preta. Ninguém saiu
ferido, mas foi o suficiente para a polícia bloquear o trânsito
dos dois lados da avenida, causando um enorme congestionamento. Em uma grande tenda
armada no meio da rua o aguardavam cerca de 30 líderes tribais.
Sem discursos nem comício, o encontro foi rápido, apenas
conversas de campanha, enquanto dezenas de crianças corriam e brincavam
em volta da tenda colorida. Um almoço à moda tribal foi
servido em seguida - mistura de arroz, macarrão, amendoim e carne
de cabrito, comida com a mão direita, conforme a tradição.
O que sobrou foi levado para dentro das casas, para que mulheres e crianças
pudessem almoçar, sentados em roda, no chão. Cerca de uma hora
depois foi a vez do bairro de Al-Hurria (Liberdade). O mesmo ritual, com
exceção do almoço. Nas ruas estreitas, tratores e
carroças dividem o espaço com carros velhos, muitos deles
os Passats brasileiros importados nos anos 70 e 80. Enquanto o jipe de
Al-Muttalibi era manobrado, um forte barulho na lataria do carro foi confundido
com um disparo, o que fez o motorista, ainda dirigindo, levar a mão
à pistola na intenção de sacá-la. O candidato
o acalmou. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |
|