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Religiosos xiitas
tentam influenciar eleição iraquiana |
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LOURIVAL SANTANNA |
Sábado, 6 de março de 2010
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BAGDÁ Anunciando ter uma
mensagem do clérigo xiita Moqtada al-Sadr, que estuda teologia
em Qom, no Irã, o xeque Hazim al-Araji mandou os fiéis votarem
na Aliança Nacional Iraquiana (INA), que abriga candidatos sadristas.
Segundo jornalistas iraquianos que cobriam o evento, foi a primeira vez
que os clérigos pediram votos de maneira tão direta numa
cerimônia. Araji explicou que os eleitores deviam escolher o candidato
respectivo da INA nos 80 distritos eleitorais em que eles se distribuem
em Sadr City, para que a aliança não desperdice votos e
eleja o maior número possível de deputados. "Mulheres recrutadas
pela INA andarão de casa em casa para orientar as eleitoras",
avisou Araji aos maridos, pais e irmãos acomodados na avenida.
Um pequeno número de mulheres assistia à pregação
separadas em um barracão. "Queremos que nossas mulheres sejam
como Zeina", pediu o clérigo, referindo-se à irmã
do imam Hussein, neto de Maomé. Quando Hussein foi morto e sua
cabeça exibida como a de um infiel pelos rivais na disputa pelo
califado depois da morte de Maomé, Zeina encarregou-se de anunciar
que ele era o neto do Profeta. O reconhecimento de Hussein e de seu pai
Ali, também assassinado, como os herdeiros do califado, deu origem
à seita xiita, numa cisão dos sunitas. "Nunca pararemos
de lutar contra a ocupação americana", afirmou Araji.
Ele explicou, no entanto, que há três tipos de resistência:
a militar, ou jihadista (guerra santa), que deve ser conduzida por "profissionais"
e na qual os fiéis não devem se meter; a "cultural",
contra os valores que eles defendem; e a política, por meio dos
candidatos do partido eleitos no Parlamento. "Toda a campanha contra
nós não nos fará esquecer Hussein e Sadr", prometeu
Araji, referindo-se tanto a Moqtada quanto a seu pai, Mohammed Sadiq,
que também foi clérigo xiita e enfrentou o regime de Saddam
Hussein. "Moqtada, minha vida lhe pertence", gritava a multidão. O orador anterior,
o clérigo, Hareth el-Edari, protestou contra o suposto mandado
de prisão contra Moqtada, já desmentido pelo primeiro-ministro
Nuri al-Maliki. "Fazem isso para tentar nos provocar, para que tenhamos
alguma reação violenta e eles possam dizer à mídia
que somos terroristas", interpretou Edari. Os sadristas tinham uma
milícia chamada Exército Mehdi, dissolvida em 2008 depois
de um confronto com o Exército iraquiano, a mando de Maliki. Desde
então, passaram a concentrar-se na disputa política. A pregação
da sexta-feira em Sadr City foi o evento mais parecido com um comício
na campanha eleitoral iraquiana, fortemente restrita por medidas de segurança
que confinam os candidatos a encontros com líderes tribais em recintos
fechados. Sadr City tem 2,9 milhões de eleitores - o mesmo que
todo o restante de Bagdá. "Todos vamos
votar na lista da INA", disse, antes da oração, o aposentado
Abo Deaa al-Mubamudayi, de 60 anos, ex-funcionário do Ministério
da Indústria. "São eles que podem conseguir empregos
para os jovens, serviços públicos e segurança para
todos", assegurou. "Queremos que o governo mostre claramente
para onde vai o dinheiro do petróleo." Al-Mubamudayi espera
também que o próximo governo remova os muros de concreto
e os bloqueios militares que circundam Sadr City. À pergunta sobre
se as medidas de segurança não são consequência
da violência sectária, fomentada por posições
como as dos sadristas, Nama Ali al-Bidery, pedreiro aposentado de 94 anos,
culpou os americanos: "Não havia conflito entre xiitas e sunitas
antes da invasão." O gari Mohammed al-Lami,
de 28 anos, acusou os militares americanos e iraquianos de fazer batidas
à noite nas casas em Sadr City. Segundo Lami, os soldados iraquianos
roubam dinheiro, celulares e comida das casas. "O Exército
odeia os moradores de Sadr City." Ele contou que um vizinho sadrista
foi detido acusado de ser miliciano e, antes de ser solto por falta de
provas, foi morto na prisão. Lami, que tem um contrato temporário com a prefeitura, e cujo salário foi rebaixado de 350 mil dinares (US$ 300) para 200 mil (US$ 170), disse que o governo Maliki só oferece empregos para parentes de autoridades ou para quem paga propina para ser contratado - uma acusação frequente. Já o ex-vice-ministro
da Saúde Hakim al-Zamery, um membro da INA, que participou do governo
antes de romper com Maliki, dava empregos para todos os que iam pedir,
especialmente se fossem de Sadr City, comparou Lami. Ele também
citou o exemplo da deputada Maha al-Dori, da aliança, que dá
metade de seu salário para os pobres. "Moqtada está
dentro do meu coração", resumiu Bidery, apontando para
um dos cartazes com a foto do clérigo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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