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Sectarismo perde
força em eleição que decidirá o futuro do
Iraque |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo, 7 de março de 2010
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BAGDÁ A exemplo dele, muitos
eleitores sunitas trocarão partidos sectários por alianças
entre xiitas e sunitas seculares, que combatem o sectarismo religioso
na política. "Deus queira que os conflitos sectários
tenham acabado", espera Adnan Ali Shumari, de 53 anos, dono de uma
sorveteria no bairro. "Somos todos muçulmanos." Até
2003, sua sorveteria, fundada há 52 anos pelo seu pai, fechava
à 1 hora. Depois da guerra, por causa dos conflitos entre sunitas
e xiitas, ela passou a fechar às 20 horas. Poucos se aventuram
a sair de casa à noite. Shumari também votará em
Allawi, que considera um "patriota". Além da violência,
os iraquianos associam os islâmicos à corrupção
e à incompetência no governo do primeiro-ministro xiita Nuri
al-Maliki, apoiado por grupos sectários tanto sunitas quanto xiitas.
"Com tanto dinheiro que entrou nesses anos, a única coisa
que o governo fez por Adhamiya foi esta praça", critica o
engenheiro Thamer Hamid, de 44 anos, empregado numa fábrica estatal
de baterias. "A corrupção corrói este país.
A guerra sectária só beneficiou os partidos políticos.
As pessoas comuns são os perdedores." Hamid planejava votar
em Maliki, mas, depois da onda de atentados dos últimos meses,
decidiu-se por Allawi. Sentado numa cadeira,
Mohammed al-Agha observa o movimento na praça, com seu fuzil Kalashnikov
no colo e sua farda camuflada. Al-Agha, de 29 anos, é guarda do
Conselho Despertando, entidade formada por líderes tribais em todo
o país que resistiram à presença da Al-Qaeda nos
redutos sunitas. Al-Agha, de 29 anos, deu seu voto na eleição
de dezembro de 2005 a Tareq al-Hashemi, vice-presidente do país
e líder sectário sunita, e decepcionou-se: "Os islâmicos
não trabalharam por nós, só por eles mesmos." A reação
dos moradores de Adhamiya expressa a mudança de humor dos iraquianos,
cansados de conflitos e frustrados com a lentidão dos progressos
no país, cujos prédios e infra-estrutura continuam destruídos
sete anos depois da guerra. Serviços básicos, como eletricidade,
água e coleta de lixo funcionam precariamente. "Os iraquianos
aprenderam com a experiência e agora querem mudança",
analisa Hazim al-Nuaimi, professor de ciência política da
Universidade Mustansiriyah. "Os próprios partidos agora vêem
o Iraque como um país só." No imenso bairro xiita
de Sadr City, as milícias pró-iranianas inspiradas por clérigos
como Moqtada al-Sadr, cujo clã dá nome à área
(antes chamada Saddam City), depuseram em grande parte suas armas e entraram
no jogo político, competindo pelo voto. Os sadristas e outras organizações
xiitas uniram-se na Aliança Nacional Iraquiana (INA). Ao lado da
Al-Iraqiya e da aliança Estado de Direito, de Maliki, a INA está
entre os que devem conquistar mais cadeiras no Parlamento. Para os xiitas, em
geral, a escolha está entre a INA e Maliki, que lidera o partido
Dawa, na sua origem islâmico xiita, mas convertido ao secularismo.
"Allawi não tem chances aqui porque muitos pensam que ele
é baathista, ou apoiado pelos americanos, e eles odeiam ambos",
explica Ali Hussein, dono de um pequeno supermercado em Sadr City. Os
baathistas pertenciam ao partido de Saddam Hussein (Baath), que governou
o Iraque de forma ditatorial entre 1979 e 2003, reprimindo a maioria xiita. "O Exército
Mehdi (milícia sadrista) perdeu muito apoio aqui, por causa dos
conflitos, que deixaram muitos mortos", analisa Hussein. "Maliki
também perdeu, por causa dos atentados dos últimos meses
e porque seu governo não atendeu às expectativas, mas temos
de escolher entre ele e a INA", completa Hussein, que pretende votar
na Aliança por causa do que considera o mau desempenho do governo
Maliki. Já o motorista
de táxi Sadiq Johi, de 36 anos, acha que o primeiro-ministro não
tem culpa pelas falhas em seu governo. "Há muita corrupção,
mas Maliki tem boa reputação. O problema são as pessoas
que estão ao redor dele." Em 2008, Maliki mandou as Forças
Armadas suprimir O Exército Mehdi em Basra, no sul do país,
e saiu fortalecido como líder nacional, apesar de sua origem islâmica. O xiita Ghazi al-Khaziali,
de 40 anos, dono de uma loja de roupas no centro de Bagdá, traz
no corpo as marcas do conflito sectário. Ele era guarda-costas
e foi ferido num atentado a bomba contra o ex-ministro da Educação
Sami al-Mudafer em 2006. No mesmo ano, um irmão dele foi morto
com um tiro no pescoço durante um conflito sectário. Outro
já havia sido enforcado por ordem de Saddam Hussein em 1995. "Quero
alguém que melhore nossa vida", disse Khaziali, que vai votar
em Allawi. "Mesmo se (o ex-primeiro-ministro israelense) Ariel Sharon
viesse e me oferecesse 100 m² de terra, eu votaria nele." Eleitores mais sofisticados
rejeitam até mesmo a divisão entre sunitas e xiitas, explorada
politicamente a partir da queda de Saddam, pelos grupos que voltaram do
exílio no Irã e nos países árabes, e por outros
novos que se formaram sobre a plataforma religiosa. "Por que você
me pergunta isso?", reage Niam al-Qaseer, de 29 anos, aluna de mestrado
em ecologia na Universidade de Bagdá, à pergunta sobre sua
religião. "Não gosto disso, porque divide os iraquianos."
Niam votará em Allawi, precisamente porque "não mistura
política com religião". O
sunita Zeid Akram, de 20 anos, estudante de engenharia, também
é contra a divisão religiosa, e vai votar em Maliki: "O
país está melhorando, e é preciso dar mais quatro
anos a eles." O cientista político
Hamid Fadhil pondera que a questão sectária ainda influenciará
nas decisões dos iraquianos por muito tempo. Ele observa que os
candidatos não perdem tempo afixando seus cartazes em bairros habitados
por pessoas de religião diferente da sua. O que mudou é
que os iraquianos estão cansados do uso político da religião
para semear a violência entre eles. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |