|
Esperança
de paz ajuda população a vencer medo |
|
|
LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira, 8 de março de 2010
|
|
BAGDÁ Assim como a grande
maioria dos eleitores que o Estado entrevistou nos últimos dez
dias em Bagdá, Bidery votou no ex-primeiro-ministro xiita Ayad
Allawi, líder da coalizão secular Al-Iraqiya. "Não
estou contente com a situação do país", disse
Bidery, queixando-se de que não tem um emprego formal. "Para
se conseguir um emprego, é preciso pagar propina a um funcionário
público", explicou, repetindo uma queixa muito comum entre
os iraquianos. "Talvez Allawi traga mudanças." O xiita Bashir Saleh
al-Sahedi, de 35 anos, veio com a mulher, Tabarak, empurrando um carrinho
de bebê com seu filho e os pais dele. "Os atentados são
mais um motivo para votarmos, porque queremos que eles acabem", disse
Sahedi, que votou num candidato da lista do primeiro-ministro Nuri al-Maliki
porque foi seu professor. "As explosões não vão
nos deter", confirmou Tabarak, de 19 anos, os grandes olhos verdes
contrastando com o véu e o vestido cor-de-rosa. "Vim votar porque
quero parar essas bombas", respondeu Ayad Tareq, de 38 anos, à
pergunta sobre se não tinha medo de sair de casa em meio aos atentados
a bomba e ataques com morteiros e foguetes Katyusha. Funcionário
do Ministério dos Transportes, Tareq confessa que também
votou no principal candidato da oposição: "Gosto de
Allawi porque ele não discrimina entre xiitas e sunitas, e porque
acho que vai ganhar", explicou. "Maliki foi bom no início,
mas depois se tornou irreconhecível. Só ajuda o grupo dele,
não as pessoas comuns. Ficou igual a Saddam (Hussein)", completou,
referindo-se ao ditador que governou o Iraque de 1979 até a invasão
americana, em 2003. "Poucas pessoas
estão vindo votar, porque estão vendo primeiro o que vai
acontecer", reconheceu Amr Ahmed Niaimi, de 49 anos, com a mulher,
um casal de filhos pequenos e um primo. "Não tenho medo."
Niaimi trouxe o filho Abdullah, de seis anos, porque ele queria colocar
a tinta azul indelével no indicador, destinada a evitar que votem
mais de uma vez. Também votou em Allawi: "Foi um bom primeiro-ministro
e não é sectário." Em meio aos barulhos
das explosões, Mohammed Abu Yassin Al-Ani veio votar com a mulher
e quatro filhas, a mais nova de colo e a mais velha adolescente. "No
ano passado, uma bomba explodiu perto da minha casa", contou Ani,
um funcionário público de 31 anos. "Podemos ser mortos
tanto na rua quanto em casa." Sunita, ele votou na aliança
liderada pelo ex-primeiro-ministro xiita Ayad Allawi: "Precisamos
de mudança." Rabiya, outra eleitora
sunita de Allawi que não quis dar o primeiro nome, declarou ao
lado da filha adolescente: "Tenho medo, mas o que posso fazer? O
Iraque é precioso para nós. Precisamos salvá-lo." "Estamos acostumados
com as bombas", disse Mustapha Munjed, um estudante de 19 anos. "Voto
na lista de Allawi porque ele é honesto." A corrupção
é uma das principais acusações contra o governo do
primeiro-ministro Nuri al-Maliki. Muitos iraquianos se perguntam para
onde foi o dinheiro do petróleo, cuja produção saltou
de 500 mil para 2 milhões de barris por dia, enquanto boa parte
dos prédios destruídos durante a guerra não foi reconstruída,
as ruas e estradas continuam esburacadas e cheias de entulho e lixo e
o fornecimento de eletricidade e água é precário.
Como muitos sunitas,
Munjed gostaria de ter reelegido o deputado Saleh al-Mutlaq, líder
de um partido sunita secular que integra a aliança Al-Iraqiya,
de Allawi. Mas, por ter pertencido ao Partido Baath, de Saddam, ele foi
banido das eleições pela Comissão de Transparência
e Justiça do Parlamento, dominada por dois deputados da Aliança
Nacional Iraquiana (INA), formada por grupos xiitas apoiados pelo Irã.
Maliki apoiou o banimento, que atingiu cerca de 500 candidatos. A INA foi a lista
escolhida por Fahed Abdullah al-Aziz, de 42 anos: "Ela tem políticos
famosos e gostei do que eles disseram na campanha." A aliança
reúne o clérigo Moqtada al-Sadr e o líder do Conselho
Supremo Islâmico do Iraque, Ammar al-Hakim, cujas milícias
foram responsáveis por boa parte da violência sectária
entre 2005 e 2007, mas que agora se concentram no jogo político,
e também por xiitas seculares, como Ahmed Chalabi, que trocou o
apoio dos Estados Unidos pelo do Irã. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |
|