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Baquba ainda sofre
com Al-Qaeda |
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LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira, 15 de março de 2010
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BAQUBA, IRAQUE "Nosso objetivo
era lutar contra os americanos", continua calmamente Al-Mujamaa,
que entrou na Al-Qaeda assim que ela começou a instalar-se no Iraque,
em 2003. Apesar de ter apenas 26 anos, chegou à patente de "emir",
ou comandante, da defesa antiaérea (encarregada de derrubar helicópteros
americanos). "Mas depois a Al-Qaeda mudou de ideologia, adotou a
agenda de outros países e passou a atacar a polícia e o
Exército iraquianos. Eu me opus a isso. Tentei fazê-los mudar
de ideia. Saí da Al-Qaeda em abril de 2007 e passei a lutar contra
eles." Na terça-feira,
Mujamaa estava no carro com a filha Huda, de 2 anos e meio, quando um
artefato explodiu sob o chassi. A menina feriu-se no rosto. "Acho
que era uma bomba sonora", diz Mujamaa, que já perdeu a conta
de quantas vezes o tentaram matar. Seu pai, irmão, tio e cinco
primos foram mortos pela Al-Qaeda. Mujamaa é o
líder do Sahawat (Despertar) em Baquba, capital da província
de Diyala, e diz ter 12 mil homens sob seu comando - 9.500 combatentes
e 3.500 vigias. Inicialmente, o movimento, espalhado pelas províncias
sunitas do centro-norte e oeste do Iraque, recebia o patrocínio
direto dos Estados Unidos. A operação foi transferida em
junho de 2008 para o governo iraquiano. Mujamaa e seus homens não
estão felizes. Os EUA pagavam US$
500 por mês para cada combatente, e de US$ 4 mil a US$ 5 mil para
Mujamaa. O soldo caiu para US$ 250 e o contingente, de 16 mil para 12
mil. Mujamaa parou de receber sua parte. À pergunta
sobre se Diyala ficará segura depois da retirada das tropas americanas,
Mujamaa garante que não: "O Irã vai assumir o controle."
Ele afirma que a Al-Qaeda no Iraque é sustentada pelo regime iraniano.
Muitos iraquianos, principalmente sunitas, acreditam nisso. A polícia de
Diyala sofreu um duro golpe da Al-Qaeda no dia 3. Quatro dias antes das
eleições parlamentares de domingo, uma sequência coordenada
de três atentatos a bomba matou 33 pessoas, entre elas 12 policiais,
e deixou 72 feridos. "Para recrutar três terroristas suicidas
numa cidade pequena, e realizar atentados como esses, é preciso
ser um grupo grande, bem financiado e estruturado", reconheceu ao
Estado o coronel Raguib el-Awomery, comandante da Polícia
Federal na província de Diyala. Mesmo assim, o coronel
acha que os americanos podem ir embora. "Dia após dia, as
forças iraquianas estão assumindo as responsabilidades dos
americanos", disse ele. "Espero que tudo corra conforme o cronograma."
De maio a agosto, o número de soldados americanos deve ser reduzido
de 97 mil para 50 mil. O foco da missão mudará do combate
para o treinamento das forças iraquianas - tanto militares quanto
policiais. As Forças Armadas
iraquianas têm 197 mil homens; a polícia, 600 mil. Em Diyala,
são 20 mil policiais, e Awomery diz que não há necessidade
de mais. "Estamos fazendo progressos contínuos contra a Al-Qaeda,
não só a polícia e o Exército, mas também
os cidadãos comuns, que nos dão informações",
disse Awomery. Ele reconhece que o Despertar "tem desempenhado um
papel significativo em ajudar as forças de segurança a limpar
a área, a combater a Al-Qaeda e outros grupos armados". De acordo com o governador
de Diyala, Abdul Nasser Mahmud, o Despertar foi importante também
para neutralizar a influência da Al-Qaeda nas mesquitas, que eram
usadas como locais de doutrinamento e recrutamento. "As pessoas viram
que gente religiosa, como os integrantes do Despertar, estava contra a
Al-Qaeda", disse ele ao Estado. O coronel Awomery
levou o Estado num comboio da polícia para uma patrulha
no bairro de Al-Aza, antes inteiramente controlado pela Al-Qaeda, que
montava até postos de controle nas ruas de Baquba. O comboio parou
em frente à antiga Escola El-Amin, que a Al-Qaeda transformou em
quartel-general. Os americanos desalojaram os terroristas num ataque de
mísseis. A escola foi transformada, simbolicamente, em delegacia
de polícia. Mas, também simbolicamente, a Al-Qaeda a destruiu
completamente, num atentado a bomba, em 2007. "Esta é
a questão crítica", diz o governador Mahmud, diante
da pergunta sobre se é possível manter a segurança
em Diyala sem a ajuda dos americanos. "Se os grupos políticos
se reconciliarem, se os países vizinhos pararem de interferir nos
nossos assuntos, se o próximo governo for equânime, se conseguirmos
atrair investimentos externos, impulsionar a economia e diminuir o desemprego,
que facilita o recrutamento dos terroristas, sim." São muitos
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