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Nostalgia de Saddam
povoa imaginário sunita |
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LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira, 15 de março de 2010
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TIKRIT, IRAQUE "Soube que vocês
foram ao túmulo de Saddam. Gostaram?", pergunta na entrada
o xeque, cujo avô era primo do pai de Saddam. Não há
segredos na vila de Oja, a terra natal de Saddam Hussein, na periferia
de Tikrit, 140 km ao norte de Bagdá. "É lá que
realizamos casamentos e velórios." O salão de festas
e reuniões de Oja tornou-se o mausoléu de Saddam, com seu
túmulo, os dos filhos Oday e Qusay e do tio Hassan al-Majid. Ali se encontra também
um curioso relicário dos tempos do ditador, composto de presentes
de admiradores, como um painel de 67 fotos de Saddam e um poema escrito
por um admirador: "Saddam, és o mais temido, mesmo no túmulo.
Sinto o amor que está dentro de ti. Eles te humilharam e decepcionaram.
Todos te invejam. Eles odeiam obedecer a moral. Eles te mataram, mas ainda
vives em nossas almas." Na rua que dá
acesso ao mausoléu, a fachada da Escola Secundária Feminina
Al-Intisar (A Vitória) exibe um retrato oficial de Saddam, onipresente
no Iraque na época de seu regime, e agora uma grande raridade.
"Nós o amamos porque é filho daqui, é nosso
líder", explica uma professora da escola. "Toda vez que
olhamos para aquele retrato, lembramos como tudo era bom naquela época." O tempo parece ter
parado em Tikrit, mas não é bem assim. "Allawi teve
muito mais votos que eu aqui, mesmo sendo xiita", sorri Al-Nida,
candidato a deputado pelo pequeno partido sunita Movimento Nacional de
Patriotas e Poderes Nacionais. O ex-primeiro-ministro Ayad Allawi lidera
uma aliança de 11 partidos xiitas e 10 sunitas, todos seculares,
que atraiu maciçamente o voto dos sunitas, numa rejeição
ao sectarismo, no novo Iraque governado inevitavelmente pela maioria xiita.
Nida está sem aliados nesse novo Iraque. No dia 1º de janeiro de 2004, o coronel americano James Hickey, comandante da Operação Aurora Vermelha, que capturou Saddam perto de Tikrit, mandou prender o xeque, seu pai e seu irmão. Eles passaram 3 meses e 27 dias na famosa prisão de Abu Ghraib, cenário de torturas que levaram a um escândalo e ao julgamento de militares americanos. "Era inverno
e ficamos em tendas", recorda o xeque, com os olhos marejados. "Passamos
muito frio e humilhações." Ele diz que foi interrogado
muitas vezes: "Queriam saber se eu conhecia Osama Bin Laden."
As paredes da sala de Nida ainda guardam as marcas de disparos feitos
pelos americanos, em várias batidas realizadas em sua casa. "Confiscaram
armas que eu tinha com autorização do governo e roubaram
coisas minhas." Seu pai foi morto
em 2008, num ataque terrorista que ele acredita ter sido cometido por
"um grupo de terroristas que recebeu ordens do Irã de matar
todos os imames (líderes religiosos), médicos, pilotos e
xeques". No caso de seu pai, ele diz que um parente que comandava
a escolta foi comprado por US$ 50 mil. Seis homens participaram do atentado.
Quatro foram enforcados. "Os outros dois estão sob proteção
da Síria, apesar de pedidos à Interpol de que fossem entregues.
Essa para mim é a prova de que foi ordem do Irã", conclui
ele, referindo-se à aliança entre os dois países. Nida diz que teve
uma filial local do movimento Despertar, que combate a presença
da Al-Qaeda, mas a desfez quando líderes do movimento lhe pediram
para fazer a segurança da rodovia Bagdá-Mosul, que passa
em frente à sua casa. Nida recusou-se, porque a rodovia é
usada pelos comboios americanos, e ele não deseja colaborar com
a ocupação. "Na época
de Saddam era melhor, porque o combustível era barato e podíamos
trabalhar nas nossas terras", dizem os agricultores Shialan al-Jnabi
e Abass al-Jnabi. Depois da invasão, o governo iraquiano elevou
os preços dos combustíveis ao nível do mercado internacional.
O barril de 220 litros de óleo diesel, usado nos geradores que
alimentam o sistema de irrigação das fazendas, saltou de
US$ 2 para US$ 100, dizem Shialan e Abass, que tiveram de deixar suas
terras no vilarejo de Al-Narda e ir trabalhar na construção
civil em Tikrit. Os dois votaram em
Allawi: "Esperamos que ele crie empregos. Quaisquer empregos, desde
que o salário seja melhor." Os moradores de Tikrit, assim
como o restante dos iraquianos, sabem que Saddam não vai voltar.
A esperança de muitos deles está num Iraque não sectário,
que crie prosperidade para todos. Assim quem sabe poderão deixar
para trás Saddam, a Al-Qaeda, os iranianos e americanos, e olhar
para o futuro. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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