Movimento palestino continua unido, garante deputado
Membro do Conselho Nacional Palestino diz que Israel contrata agentes para insuflar conflito interno

LOURIVAL SANT’ANNA
Terça-feira, 25 de junho de 1991

Os casos de execuções de palestinos por palestinos nos territórios ocupados resultam de uma estratégia de Israel para dividir o movimento. A afirmação foi feita por Hamdi el-Rifi, deputado do Conselho Nacional Palestino (CNP). Em entrevista ao Estado, ao passar por São Paulo, El-Rifi assegurou que os palestinos estão unidos.

El-Rifi, de 39 anos, mora em Túnis (Tunísia), sede da Organização de Libertação da Palestina (OLP). O deputado faz um curso de doutorado em Direito em Argel, na Argélia, e é secretário-geral da União Geral dos Estudantes Palestinos (Agups). Ficou preso de 1971 a 84 em Israel, e exibe marcas que diz serem de tortura.

O Conselho Nacional Palestino – o Parlamento no exílio – é composto de 400 deputados. As cadeiras são divididas do seguinte modo: um terço para dirigentes das organizações populares e sindicatos; um terço para representantes da comunidade palestina fora dos países árabes; e um terço para os grupos e partidos políticos que compõem a OLP.

Hamdi el-Rifi tornou-se deputado do CNP ao se eleger secretário-geral da União Geral dos Estudantes Palestinos (Gups), no ano passado. A Gups, que tem 50 sedes em todo o mundo, inclusive nos territórios ocupados, elege a cada três anos seus 33 dirigentes, que indicam os 11 integrantes do Comitê Executivo, todos com cadeiras no CNP.

Estado - Segundo a agência Reuters, este ano 63 palestinos foram mortos por palestinos, sob acusação de colaborar com Israel, enquanto 50 morreram em confronto com o Exército israelense. A intifada (levante) se tornou uma guerra entre palestinos?

Hamdi el-Rifi - Israel procura recrutar agentes para voltar palestinos contra palestinos. Este é o modo que Israel tem para dizer que há problemas no movimento palestino. Mas nosso grau de unidade é muito grande. Em comparação com outras revoluções, a Palestina é a que menos tem problemas com a questão do colaboracionismo. Israel usa também israelenses disfarçados de árabes, com carros com placas árabes, para liqüidar líderes palestinos.

Estado - Alguns líderes nos territórios ocupados tentam fundar um partido alternativo à OLP. Também seguem ordens de Israel?

El-Rifi - Ainda não surgiu uma organização para substituir a OLP. Prova disso é que, ao se reunir por quatro vezes com o secretário de Estado americano, James Baker, a delegação de palestinos dos territórios ocupados declarou estar sob a liderança da OLP. Eles repetiram todas as exigências da OLP.

Estado - E o Movimento de Resistência Hamas?

El-Rifi - O Hamas é uma organização islâmica sunita que possui pontos de vista radicais. Sua presença é minoritária entre palestinos, mas ela tem um papel na intifada. Sua visão é distinta daquela da OLP, por exemplo quanto ao plano de paz. Mas essas divergências fazem parte da democracia. Fazemos uma revolução democrática, e pretendemos estabelecer um Estado democrático, com todas as religiões e um Parlamento.

Estado - Como estão as relações entre a OLP e os países árabes que apoiaram os EUA na guerra do Golfo, e pararam de enviar dinheiro à organização?

El-Rifi - A OLP procurou uma solução árabe para o conflito do Golfo, porque sabia que os EUA queriam aproveitar a situação para implantar suas bases militares na região. A OLP tinha muita clareza dessa estratégia, e propôs ao mesmo tempo que o Iraque se retirasse do Kuwait. Mas, ao contrário do que muitos pensam, não eram os governos que mandavam dinheiro para a OLP. Os próprios palestinos que trabalham nos países árabes do Golfo é que enviavam 5% de seus salários. Os governos agora proibiram esse envio. É verdade que a posição da OLP na guerra lhe trouxe muitas dificuldades, mas ela continuará resistindo.

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