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RAMALLAH -
Em outubro de
1992, Yasser Arafat concedeu ao Estado uma entrevista
exclusiva em Túnis, sede da Organização de Libertação
da Palestina (OLP) no exílio. Na última pergunta, pedi a
Arafat, então com 63 anos, que fizesse um balanço de sua
atuação à frente do movimento palestino. Nessas
duas décadas, fizemos o povo palestino retornar ao mapa político,
resumiu Arafat. O próximo passo é retornar ao mapa
geográfico.
Passaram-se 12 anos. Arafat e seus companheiros retornaram ao mapa geográfico,
graças aos acordos firmados em 1993 e 1994 com Israel. Mas a que
preço! Em outubro de 1992, uma das minhas matérias começava
com uma queixa: Para entrevistar Yasser Arafat, não basta
que a OLP esteja de acordo. É preciso muita paciência, resistência
física e total disponibilidade, para
uma espera que pode durar semanas. Arafat tem talvez a agenda mais volátil
e misteriosa do mundo.
No dia em que cheguei a Túnis, para a entrevista agendada com antecedência,
Arafat embarcou inesperadamente para um giro por países árabes.
Restava sentar e esperar. Até o seu chefe de gabinete, Sami Musalam,
um homem franzino e manco de um ferimento de guerra, dizia desconhecer
sua agenda, tratada com total sigilo por razões de segurança.
Que contraste em relação aos últimos anos de Arafat
em seu escritório em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, onde
foi confinado pelo governo israelense! Depois de voltar de viagem, Arafat
ainda demorou uns dias para me receber. Na verdade, só o fez quando
lhe informaram que o repórter,
cansado de esperar, estava voltando para o Brasil. Um blefe, claro. Ele
interrompeu uma reunião do Comitê Central da OLP, cujos membros
ainda estavam se dispersando quando entrei em seu amplo escritório.
Apesar de uma gripe forte, Arafat exalava energia.
Às vezes, após três noites sem dormir, com reunião
em cima de reunião, já está todo mundo morto. Menos
Arafat: ele aparece como se tivesse acabado de acordar e tomar banho.
Tem resistência de ferro, contou-me na época o intérprete
Munjed, em seu espanhol perfeito adquirido em sete anos de
estudos em Havana. Arafat falava um razoável inglês, mas
me recomendaram entrevistá-lo em árabe, em nome da precisão
dos conceitos.
Há 30 anos, ele trabalha 18 horas por dia, sem folga, e sua
saúde é melhor do que a de um homem médio de 67 anos,
me atestou, em maio de 1996, o médico Ahmed Sobeh, então
diretor de Relações Internacionais da Autoridade Palestina,
depois de um mal-estar sofrido por Arafat no Cairo, que ele atribuiu a
gripe e excesso de trabalho. Nós falamos que ele precisa
descansar mais, ter mais sossego, mas ele não ouve, reclamou
o clínico geral.
Na entrevista, Arafat, afastado dos territórios ocupados havia
quase três décadas, subestimou seriamente a popularidade
e o poder desestabilizador do Hamas e da Jihad Islâmica, os grupos
fundamentalistas islâmicos que floresceram nos últimos anos
do exílio da OLP, fornecendo apoio material creches, hospitais
e dinheiro para as famílias dos mártires
e doutrinamento religioso aos desassistidos palestinos dos territórios
ocupados.
À pergunta sobre se a oposição desses grupos não
ameaçava o processo de paz, o líder palestino respondeu:
Temos uma democracia, com multipartidarismo e liberdade de expressão.
Na OLP, respeitamos a opinião da minoria, mas essa minoria tem
de se comprometer com a opinião da maioria. Quando insisti
na crise de representativade da OLP, Arafat emendou: É certo
que há o respaldo por parte do Irã e de outros países
do Golfo a organizações ou a indivíduos tanto fundamentalistas
quanto direitistas, e até mesmo esquerdistas, mas isso não
significa nada. A OLP representa o povo palestino.
O retorno de Arafat e o estabelecimento de um regime limitado de autonomia
na Faixa de Gaza e em partes da Cisjordânia, em 1994, causaram uma
euforia que rapidamente se dissipou, com a falta de melhorias concretas
na vida dos palestinos. Os atentados suicidas do Hamas e da Jihad Islâmica
erodiram tanto a autoridade interna de Arafat quanto sua credibilidade
perante Israel e os Estados Unidos, que consideraram que ele não
estava se esforçando para conter o terrorismo islâmico.
Quatro dias depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, um assessor
muito próximo de Arafat me contou em Ramallah que os encarregados
da área de segurança da Autoridade Palestina haviam chamado
seus correlatos do Hamas e da Jihad Islâmica e advertido: Se
vocês cometerem a besteira de ordenar um atentado terrorista em
Israel neste momento..., e fez o gesto de cortar a
garganta. De fato, os atentados só recomeçariam três
meses depois. No calor da hora, o assessor não pareceu ter-se dado
conta de que estava confirmando que a AP, quando queria, podia conter
o terror.
É bem provável que, nos momentos de maior desalento em Ramallah,
Arafat tenha sentido saudade de seu exílio dourado na Tunísia,
país árabe do norte da África, onde a OLP, beneficiária
de generosa ajuda financeira do mundo árabe, era uma espécie
de Estado dentro do Estado, com seus inúmeros prédios e
veículos, e seus homens circulando armados de metralhadoras.
O nome de guerra Abu Ammar, dos tempos da guerrilha, era inspirado na
tradição árabe de chamar os homens pelo nome do pai
abu, em árabe. No decorrer do tempo, passou
a ser uma forma carinhosa de os palestinos chamarem Arafat de pai.
Talvez o que melhor
representasse o que Arafat significou para os palestinos fosse a Beit
al-Sumud (Casa da Resistência), um orfanato com 50 crianças
e jovens de 7 a 18 anos, cujos pais tinham morrido em conflito com Israel.
Eram os filhos dos mártires da revolução.
Entre eles, havia cinco crianças na faixa dos 10 anos, conhecidas
como os únicos sobreviventes de Sabra e Chatila, os campos de refugiados
em Beirute que foram palco de um massacre por milicianos cristãos
libaneses com conivência do Exército israelense de ocupação,
em setembro de 1982.
Os cinco eram recém-nascidos e foram encontrados nas tendas por
integrantes das agências humanitárias que entraram nos campos
depois da matança. Escondidos por seus pais antes de eles serem
mortos, não foram vistos pelos milicianos. Arafat os batizou, deu-lhes
seu sobrenome e os visitava regularmente.
Onde estarão agora os cinco sobreviventes de Sabra e Chatila? Não
faço idéia. Mas nunca esqueci uma pergunta que um dos meninos
fez a Rabiha Tirawi, diretora do orfanato: O que vai acontecer com
a gente se a revolução não der certo, se Abu Ammar
morrer?
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