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JERUSALÉM
- Os palestinos acordaram ontem com uma estranha mistura de sentimentos.
Envoltos no luto por seu líder Yasser Arafat, enterrado na sexta-feira
em Ramallah, eles saíram ontem logo cedo às ruas para comemorar
o Eid el-Fitr, a Festa do Fim do Jejum, no primeiro dia do mês de
Shawwal, que segue o Ramadã. É um dos dois principais feriados
muçulmanos. O outro é o Eid el-Adha, ou Festa do Sacrifício,
que lembra a oferenda a Deus de um cordeiro por Abraão, e será
celebrada dentro de dois meses.
Depois de 29 dias sem ingerir rigorosamente nada entre o nascer e o pôr-do-sol,
os palestinos passeavam ontem pelas ruas estreitas da Cidade Velha de
Jerusalém, fumando, comprando comida nas bancas na calçada
e levando as crianças para comer algodão-doce que um homem
fazia à porta de uma das lojas fechadas.
Às 6h30 a movimentação já era grande na cidadela,
com homens, mulheres, crianças, velhos e jovens caminhando apressadamente
para a Mesquita de Al-Aqsa, de onde, segundo a tradição,
Maomé subiu aos céus, para assistirem à pregação
das 6h45, a primeira das cinco orações do dia, presidida
pelo múfti de Jerusalém, Ekrima Sabr, a principal autoridade
religiosa palestina.
No sermão, quando o múfti pediu aos fiéis que rezassem
por Arafat, várias pessoas deixaram a mesquita resmungando contra
o líder palestino, que é menos popular em Jerusalém
do que na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Sabri criticou duramente
os líderes dos países árabes, por não ajudarem
os iraquianos e os palestinos, e proibiu os fiéis de trabalhar
na construção do muro que Israel está erguendo, por
razões de segurança, entre os territórios palestinos
e israelenses. "Não coloquem uma só pedra naquele muro",
ordenou o múfti, no sermão pontuado pelo refrão Allah-u-Akbar,
"Deus é grande", repetido três vezes pelos fiéis.
"É melhor morrer de fome do que aceitar esse trabalho."
Terminada a oração, os fiéis saíram de novo
apressadamente da mesquita, para distribir doces e presentes em suas casas
e ir visitar os parentes mais próximos, conforme a tradição
do Eid el-Fitr. O clima nas ruas contrastava com a manchete do principal
jornal palestino, Al-Quds (nome árabe de Jerusalém): "Palestinos
choram a separação de Arafat." Nas emissoras de rádio
palestinas, Arafat é agora chamado de Raiz al-Shahid, o líder
mártir.
"Não sei se estou feliz ou triste", confessou Abu Nijmeh,
dono de uma distribuidora de móveis em Jerusalém. "A
morte de Arafat deixou as pessoas confusas, sem saber para que lado ir,
porque ele não terminou o acordo de paz." Não que Nijmeh
não seja um homem de convicções fortes: depois que
ele sai, seus amigos comentam que ele fechou a fábrica de móveis
que tinha em Eretz, na fronteira da Faixa de Gaza com Israel, quando o
governo israelense o obrigou a demitir os empregados palestinos e contratar
judeus.
"Quando Alá determina que chegou nossa hora, ninguém
pode evitar", disse o imam (líder religioso) Mohassen Nain,
da Mesquita de El-Shah Jerah, comentando a coincidência entre a
morte de Arafat e o fim do Ramadã. "Como seres humanos, não
podemos mudar o destino", resigna-se o tapeceiro aposentado Najeh
Shueki, de 56 anos. "De acordo com o Islã, a vida é
assim: um dia você está um pouco feliz, noutro está
triste. Tudo o que sentimos vem de Alá, e temos de respeitar."
"Só Deus sabe o que vai nos acontecer", concorda Ibrahim
Abdullah, de 66 anos, que teve de deixar sua casa e sua loja na Cidade
Velha em 1967, quando Israel ocupou Jerusalém Oriental. Mudando-se
para fora da cidadela com seus 11 filhos, Abdullah conta que recusou a
indenização do governo israelense. "Esperamos que Ele
traga paz e justiça para palestinos e israelenses."
Luto, festa, tristeza, alegria, amargura, esperança: a ambigüidade
que marcou a vida de Arafat, considerado herói por uns e terrorista
por outros, acompanha os palestinos depois de sua morte.
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