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JERUSALÉM
O estado de saúde do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon,
teve uma "ligeira melhora", mas continua crítico. Foi
o que informou, às 18h de ontem em Jerusalém (14h em Brasília),
o Hospital Hadassah Ein Kerem, onde Sharon está internado desde
a noite de quarta-feira, quando sofreu um derrame cerebral. O primeiro-ministro
continua em coma profundo, induzido por medicamentos.
Shlomo Mor-Yosef, diretor do hospital, informou que uma junta de especialistas
se reunirá hoje de manhã para interpretar as imagens de
tomografia e tentar reunir elementos para uma tomada de decisão
crucial: quando começar a reduzir os analgésicos, para que
Sharon possa voltar de seu coma. Esse estado mantém baixa a pressão
sangüínea do cérebro, evitando novas hemorragias, que
foram contidas e drenadas, ao longo dos últimos dias, com três
cirurgias que totalizaram cerca de 16 horas.
"Só quando reduzirmos a profundidade do coma poderemos avaliar,
pela resposta dele a estímulos, qual a extensão do dano
causado ao cérebro. Se ele não reagir, será um sinal
muito ruim", disse Mor-Yosef, em entrevista coletiva logo depois
de encerrado o Shabath, o descanso semanal judaico. Diante das insistentes
perguntas dos jornalistas sobre como Sharon deve voltar do coma, o médico
reiterou: "Não temos como responder isso agora. Por ora, estamos
concentrados em salvar a vida do primeiro-ministro." Mor-Yosef deixou
claro que as próximas 24 horas seriam decisivas.
Segundo o médico, a equipe está otimista quanto às
chances de sobrevivência de Sharon, que completa 78 anos em fevereiro.
Especialistas não envolvidos diretamente no caso têm declarado
que é extremamente improvável que Sharon, que acaba de fundar
um partido e se preparava para concorrer ao terceiro mandato, em 28 de
março, possa voltar à atividade política. Mor-Yosef
disse que sua equipe está em contato permanente com "grandes
especialistas do mundo", que têm auxiliado, à distância,
na condução do caso.
Depois de haver sofrido um leve derrame no dia 18, voltando a trabalhar
três dias depois, Sharon sofreu novo acidente vascular cerebral
na noite de quarta-feira, quando descansava no seu Rancho Sicamores, no
Deserto do Neguev, a uma hora de carro de Jerusalém.
Apesar do incidente do dia 18, e de Sharon estar-se preparando para realizar
um cateterisma no dia seguinte, para tapar um buraco entre as câmaras
superiores do coração, por onde provavelmente o primeiro
coágulo passara, o primeiro-ministro não estava acompanhado
de médico, mas apenas de um enfermeiro de sua equipe de segurança,
nem tinha um helicóptero à disposição.
A situação tem sido criticada em Israel, como uma maneira
pouco prudente de tentar transparecer que Sharon estava bem de saúde,
no começo da corrida eleitoral. Também há dúvidas
sobre a conveniência de tê-lo medicado com anticoagulantes,
que aumentam o risco de hemorragias, para dissolver o coágulo depois
do primeiro derrame.
Sob um frio de 10 graus, ameno, porém, para os padrões do
inverno israelense, um batalhão de jornalistas dava plantão
à frente do hospital no fim da tarde de ontem. Apesar da notável
popularidade de Sharon, não tem havido vigília de admiradores
à frente do hospital. Mas a consternação era visível
entre israelenses que entravam e saíam, em visita a parentes internados.
"Como todos, também fico pensando no que acontecerá
se ele morrer", disse Leol Maoim, de 40 anos, segurança da
companhia telefônica Bezeq. "Colocamos nas mãos de Deus.
Se ele puder voltar, será bom para todos. Queremos que Sharon faça
a paz." Segundo Maoim, até seus colegas palestinos na empresa
dizem que seria bom se eles tivessem um líder como Sharon.
"Todos sentimos que nosso país depende de uma pessoa que está
muito doente", disse Tali Skela, estudante de comunicação
de 23 anos. "Não sabemos como será o futuro do nosso
país. Estamos com muita esperança de que ele melhore, mas
não acreditamos que ele possa voltar a ser primeiro-ministro."
O vácuo de liderança deixado por Sharon é resumido
assim por Tali: "Não achamos que haja alguém que possa
substituí-lo. Ele é único."
Não que haja unanimidade sobre as ações de Sharon,
sobretudo a controvertida retirada da Faixa de Gaza, em agosto e setembro
do ano passado. "A Torá diz que não se deve devolver
terra israelense", pondera o ultra-ortodoxo Yaheel Yehusha Goldberg,
de 20 anos, aluno de uma yeshiva, as escolas dedicadas ao estudo do livro
sagrado judaico. "Por outro lado, ela diz também que os judeus
não devem viver em lugares que lhes ofereçam perigo."
Os cerca de 8.500 colonos judeus expulsos de Gaza e outras dezenas de
milhares de assentados que correm o mesmo risco na Cisjordânia são
menos condescendentes, mas eles representam uma minoria.
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