|
Eleição
palestina pode influenciar a israelense |
|
|
LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira,
9 de janeiro de 2006
|
|
JERUSALÉM Sharon concluiu que,
para ser seguro, Israel não podia estender excessivamente seus
domínios territoriais, nem açambarcar uma população
palestina em franca explosão demográfica. Uma vez vencedor
das eleições de 28 de março próximo - que,
conforme as pesquisas, lhe dariam o terceiro mandato -, Sharon pretendia
desmantelar colônias em algumas áreas da Cisjordânia,
ao mesmo tempo em que as consolidaria em outras áreas, formando
"blocos de assentamentos". O que restasse, somado à Faixa
de Gaza, comporia o novo Estado palestino. A abrupta saída
de cena de Sharon, que pode sobreviver ao derrame, mas não deve
voltar ao cargo, cria uma interrogação sobre o futuro dessa
política. Apesar da maciça aprovação popular
da saída da Faixa de Gaza, ela não será a questão
definidora dessas eleições, acredita o cientista político
Reuven Hazan, da Universidade Hebraica, especialista em pesquisas de opinião
e no tema da desocupação. "É apenas uma entre
muitas questões, que não define toda a problemática
política", diz Hazan. "Até porque o Kadima (de
Sharon) não é o único que defende o desengajamento",
argumenta o analista, usando o eufemismo israelense para desocupação.
"O Partido Trabalhista também é a favor dele." Hazan prevê
que, se a Faixa de Gaza continuar em relativa calma interna (apesar dos
ataques com foguetes kassam, que continuam partindo de lá, dirigidos
contra áreas israelenses), o tema não impactará as
eleições. O cenário pode mudar com as eleições
parlamentares palestinas, marcadas para 25 de janeiro, nas quais se prevê
bom desempenho do grupo extremista Hamas. "Se, depois das eleições,
Gaza mergulhar no caos, não haverá futuros desengajamentos." Na verdade, reconhece
Hazan, ninguém sabe ao certo qual a porcentagem de apoio a uma
eventual retirada de assentamentos da Cisjordânia. "Isso não
foi perguntado nas pesquisas, não estava na agenda", diz ele.
Do ponto de vista do mapa desenhado no Velho Testamento, segundo a leitura
ortodoxa, Gaza faria parte de Israel tanto quanto Judéia e Samaria,
os nomes bíblicos pelos quais os judeus chamam a Cisjordânia.
Tanto um quanto o
outro foram ocupados em 1967, na Guerra dos Seis Dias, juntamente com
as Colinas do Golan, que pertenciam à Síria. A Faixa de
Gaza estava sob controle do Egito e a Cisjordânia, da Jordânia.
Mas a ocupação de partes da Cisjordânia, um território
muito maior e menos saturado de população palestina, sempre
pareceu aos israelenses mais viável do que a da densa Faixa de
Gaza. Nos 360 quilômetros
quadrados da Faixa de Gaza, espreme-se 1,77 milhão de palestinos.
Nos 5.860 quilômetros quadrados da Cisjordânia (incluindo
Jerusalém Oriental, com 184 mil habitantes), vivem 2,38 milhões
de palestinos e 187 mil colonos judeus em 244 assentamentos. Jerusalém
Oriental tem outros 177 mil colonos, em 29 assentamentos. Para além dos
números, a desocupação é um tema "de
enorme significado simbólico, traumático e divisivo",
define o psicólogo Ilan Yaniv, estudioso do assunto. Para Yaniv,
ao aceitar a desocupação, a maioria dos israelenses deixa
de encarar seu país como um "lugar de refúgio",
com fronteiras indefinidas. ." "Expandir o território
se tornou menos relevante", analisa o psicólogo. "É
uma mudança de identidade." "Antes, assentamentos
e segurança eram quase sinônimos", recorda Yaniv. "Só
depois se percebeu que, na verdade, eles criam problemas." O psicólogo
concorda, no entanto, que essa percepção pode mudar novamente,
se o "caos" na Faixa de Gaza, mencionado por Hazan, se concretizar.
"Sobretudo perto das grandes cidades israelenses, isso afetaria o
volume de concessões territoriais na Cisjordânia." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |