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'Sharon
foi castigado por Deus' |
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LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira,
9 de janeiro de 2006
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JERUSALÉM Em 1993, Hoffman,
então um solteiro de 46 anos, veio a Israel como turista. Sentiu-se
bem no país e resolveu ficar, fazendo o alia (elevação),
a nacionalização concedida pelo governo israelense, com
base no "direito de nascimento" dos judeus. "Apresentei
a katuba (certidão de casamento) dos meus pais e saí do
escritório como nacional israelense", recorda Hoffman, que
reconhece que o seu hebraico não é dos melhores: "Quando
me ouvem em hebraico, todos pedem para eu falar em inglês." Hoffman contatou então
a organização Gush Emunim (Bloco dos Fiéis), que
se encarrega de instalar imigrantes, e disse a eles que qualquer lugar
servia. "Qualquer lugar?", perguntaram. Ele confirmou. Mandaram-no
para Gush Katif (Cinturão da Colheita), assentamento judaico cercado
por palestinos no formigueiro humano da Faixa de Gaza. Lá, Hoffman
continuou fazendo o que sabia, instalando mikvas, em todo o país,
para uma empresa com sede no assentamento. Ele não gosta
dessa palavra, no entanto: "Assentamento dá idéia de
que foi feito ontem. Gush Katif foi fundado há 34 anos." A
localidade onde ele morava, Naveida Kalim, com 3.500 moradores, tinha
tudo o que tem um vilarejo: três lojas de roupas, uma de sapatos,
duas pizzarias, padarias, um corretor de seguros, uma agência dos
correios e outra de banco. No total, Gush Katif tinha 8.500 habitantes,
distribuídos por 21 colônias. No início,
Hoffman morou num trailer de 44 metros quadrados. Em 2001, comprou uma
casa de tijolos construída pelo governo. Não demorou muito,
e começaram os ataques com foguetes kassam, um artefato caseiro
do tamanho de uma a duas garrafas de vinho, que os palestinos lançavam
contra o assentamento. Hoffman conta que, em três anos, foram 5
mil foguetes. Em Naveida Kalim, uma moça foi morta e muitas pessoas
ficaram feridas, recorda Hoffman. "Os foguetes passavam por cima
das nossas cabeças como pássaros. Com o tempo, nos acostumamos." Em agosto de 2004,
Hoffman conheceu sua mulher, a canadense Ella, de 53 anos, que chegara
um mês antes. Ella e o marido haviam decidido fazer alia. Ele morreu
um mês antes da viagem, e ela seguiu adiante com os planos. Em janeiro
de 2005, casou-se com Hoffman e se mudou para o assentamento. Então veio
a tragédia, do ponto de vista dos colonos. O primeiro-ministro
Ariel Sharon resolveu desocupar a Faixa de Gaza. "Até o último
instante, esperamos um milagre, não acreditamos que isso pudesse
acontecer", lembra Hoffman. "Sharon, um verdadeiro herói
de guerra, que mandou construir minha casa, 12 anos antes, resolveu ir
contra tudo o que fez ao longo de 30 anos." As casas, a sinagoga,
o cemitério com 41 corpos, tudo foi desmantelado em agosto. Hoffman
e Ella foram alojados no Hotel Shalom, equivalente a um três estrelas,
em Jerusalém, e aguardam uma moradia definitiva. "Sharon não
entendeu o significado de Israel, que é o de que nunca mais os
judeus seriam expulsos de suas casas", diz Hoffman, que ouviu falar
que o primeiro-ministro pode não ser judeu: sua mãe, russa,
se teria convertido ao judaísmo, talvez depois de dar a luz a ele.
"Sharon achou que podia redesenhar as fronteiras de Israel, que foram
determinadas por Deus", interpreta Hoffman. "Então, Deus
disse: basta." E Sharon foi castigado, explica o ex-colono, referindo-se
ao derrame sofrido pelo primeiro-ministro. À pergunta
sobre se não é igualmente injusto que os árabes tenham
sido expulsos de suas casas pela ocupação de Israel, Hoffman
responde que não: "Este não é o país
deles. Deus fez Israel para os israelenses, assim como fez o Brasil para
os brasileiros. Eles devem voltar para os países de onde vêm
sua religião, seus costumes, suas músicas. Não quero
que os árabes morram, só quero que vão embora." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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