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O
último golpe de mestre de Sharon |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
15 de janeiro de 2006
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JERUSALÉM Sharon começou
então a pensar sobre o cenário político de Israel,
engessado pelo domínio do Partido Trabalhista antes mesmo da criação
do Estado, desde os tempos da Agência Judaica, que organizou a imigração.
A oposição fragmentária de uma dezena de partidos
pequenos de oposição, incluindo o Herut, do proeminente
Menachem Begin, que se digladiavam entre si, mantinha aquele domínio
incontestável. Sharon poderia se candidatar a uma cadeira de deputado,
que ganharia facilmente com sua reputação de soldado. Mas
era pouco para estimulá-lo. Ele pensou então
que era hora de criar um novo partido, a partir de uma coalizão
daqueles partidos pequenos, para fazer frente aos trabalhistas, cuja inspiração
socialista já fazia vergar a capacidade de financiamento do Estado.
Mas, como um neófito na política poderia introduzir uma
idéia dessas entre políticos profissionais da envergadura
de um Beguin? Sharon teve uma idéia,
inspirado num hábito da época entre generais de alto perfil
quando davam baixa: chamar para uma entrevista coletiva. "Isso lançaria
a idéia para o público de uma forma mais dramática",
recorda no livro, publicado em 1989. "Se atraísse alguma atenção
da mídia ou apoio popular, eu ficaria então numa posição
forte para abordar Beguin e os outros." Com o dinheiro da venda de
duas toneladas de feno, Sharon alugou um salão no Edifício
da Imprensa de Bet Sokolov, em Tel-Aviv, e lançou a sua proposta. Depois de meses de
confabulações com os políticos, nascia o Likud, que
passaria a dividir o poder com os trabalhistas. Mais de 30 anos depois, Sharon, agora primeiro-ministro de Israel, tentaria o truque mais uma vez. Sintonizado, como três décadas antes, com os sentimentos dos israelenses comuns e da mídia, Sharon rompeu o impasse
em que Israel estava mergulhado. De um lado, a disposição
trabalhista de negociar a paz e oferecer concessões a uma liderança
palestina que não queria ou não podia conter a violência.
De outro, o Likud, representado até então pelo próprio
Sharon e, sobretudo, pelo seu atual líder, Binyamin Netanyahu,
mais inclinado em impor suas condições aos palestinos e
garantir a segurança de Israel a ferro e fogo. As duas opções
foram reiteradamente testadas, e fracassaram, com Israel cada vez mais
vulnerável ao terrorismo islâmico, o que a ocupação
da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, com suas fronteiras porosas,
só ajudava a agravar. Num rompante que lembrou
suas manobras surpreendentes no Deserto do Sinai, Sharon resolveu retirar
os soldados e os 8.500 colonos judeus da Faixa de Gaza, passando como
uma divisão de tanques sobre as resistências de seu Likud.
Isso foi em agosto. Em novembro, tolhido não tanto pelas resistências
internas de seu partido, como pela intuição de que havia
um espaço, no centro do espectro político, a ser ocupado,
Sharon criou o Kadima, que traz consigo um significado, afinal, militar:
Adiante. Antes de seu derrame,
no dia 4, as pesquisas já conferiam ao novo Kadima - que atraiu
um ícone do trabalhismo, Shimon Peres - a liderança nas
eleições de 28 de março, com um quarto das 120 cadeiras
da Knesset (Parlamento). Depois de romper, três décadas antes,
com o unipartidarismo de fato, Sharon instaurava agora o tripartidarismo,
assumindo o cobiçado centro, o que nenhum partido até hoje
conseguira em Israel. "Tudo indica
que o Kadima será o partido-pivô, no sentido em que ganhará
a maioria tanto à direita quanto à esquerda dele, o que
lhe dá uma vantagem muito clara em relação a qualquer
outro partido", constata o cientista político Avraham Diskin,
especialista em pesquisas de opinião. "Seja quem for seu líder,
provavelmente (o vice-primeiro-ministro Ehud) Olmert, será o próximo
primeiro-ministro. É muito improvável que algo diferente
aconteça." Há uma terrível
ironia no timing do derrame de Sharon. Ele ocorreu no momento em que um
escândalo de propina de US$ 3 milhões - que sua família
teria recebido de austríacos donos de um luxuoso cassino em Jericó
- ameaçava atingi-lo "no pico de sua popularidade", observa
Diskin. Com Sharon em coma, "as pessoas pararam de julgá-lo,
e apenas sentem empatia por ele", analisa. "No curto prazo,
pelo menos até as eleições, essa empatia beneficiará
Olmert e o Kadima", acredita o sociólogo Moshe Lissak, da
Universidade Hebraica, em Jerusalém. "Até agora, Olmert
não era tão popular. É um político inteligente,
bom para articular alianças." O vice-primeiro-ministro foi
prefeito de Jerusalém durante dez anos (1993-2003), graças
não ao seu carisma, mas à sua capacidade de se aliar com
os ultra-ortodoxos da cidade. Se o quadro eleitoral se mantiver, a capacidade de Olmert de articular alianças será instrumental depois de 28 de março, quando terá de escolher parceiros para uma coalizão que lhe garanta maioria na Knesset. Uma vez no governo, Olmert seguirá o plano de Sharon, que ele, aliás, ajudou a conceber, de separar a Cisjordânia (e o futuro Estado palestino) de Israel com um muro que vem sendo construído, desocupar partes do território e consolidar a ocupação de outras. Mas num outro ritmo. "Ele não tem a mesma autoridade, capacidade e energia", analisa Lissak. "Deverá fazer as coisas mais gradualmente." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |