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Convertida
em 'Hamastão', Gaza equivale a prisão para palestinos |
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LOURIVAL SANTANNA |
Quarta-feira,
20 de junho de 2007
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GAZA Uma cancela amarela
no fim de uma rua esburacada marca o começo do "Hamastão".
"Salam-aleikun" (paz a todos), cumprimenta o repórter
do Estado, apertando a mão de um dos milicianos do Hamas
que guardam a entrada, com o boné verde do movimento, camiseta
e calça pretas e um fuzil AK-47 pendurado no ombro. "Ana sahafi
Bresil" (sou um jornalista do Brasil). O miliciano abre um sorriso
ao ouvir o nome do país do futebol: "Ahlan wa sahlan"
(seja bem-vindo). A chegada à
Faixa de Gaza dominada pelo Hamas - cuja entrada foi permitida ontem por
Israel, pela primeira vez em oito dias, apenas para jornalistas estrangeiros
- é o ingresso em uma realidade nova, mas é também
o fim de uma viagem estranha. Sair de Ramallah para Jerusalém nunca
foi tão fácil, com os soldados israelenses batendo papo
nos postos de controle, enquanto as forças de segurança
da Autoridade Palestina, controladas pelo Fatah, perseguem, dentro da
Cisjordânia, as milícias do Hamas, declaradas ilegais. Os 86 quilômetros
que separam Jerusalém do posto de Erez (fronteira entre Israel
e Faixa de Gaza) também transcorrem sem problemas. A aproximação
da Faixa de Gaza é assinalada pelo grande dirigível branco
no céu, com o qual Israel toma imagens do território inimigo
24 horas por dia. No início da tarde de ontem, havia mais jornalistas
de plantão do lado israelense do que aqueles dispostos a entrar
na primeira leva para ver os vestígios do conflito que deixou mais
de cem mortos em cinco dias, e como é um território controlado
pelo Hamas. Depois da fila para
verificação de documentos, os jornalistas aguardam num ônibus
velho, até que todos tenham sido identificados e recebido as instruções
de ligar para um contato do Exército israelense quando quiser passar
de volta: a fronteira continua selada dos dois lados. A espera dentro
do ônibus é muito mais longa que o seu percurso: ele atravessa
cem metros de barreiras de concreto e arame farpado e despeja os jornalistas
ao lado de uma pequena abertura no vasto túnel que dá acesso
ao lado palestino. Da pequena entrada
exala um cheiro perturbador de excrementos. Ali estão sentados
ou deitados no chão centenas de palestinos que vieram tentar convencer
os israelenses de que tinham uma razão muito forte para deixar
Gaza, não foram sequer ouvidos e ficaram presos nesse limbo que
não é nem Israel nem Palestina. Chegaram depois que os guardas
do Fatah fugiram, em meados da semana passada, e antes de os milicianos
do Hamas assumirem o lugar, no fim de semana. Agora, não podem
ir para a frente nem para trás. No fim do túnel
de concreto, táxis autorizados pelos milicianos aguardam avidamente
os jornalistas cheios de dólares. Os produtores locais dos jornalistas,
contatados por celulares, não podem passar da cancela, a 1 quilômetro
da saída do túnel. Os taxistas abusam: 30 shekels (US$ 7)
pela ridícula distância. Depois da matança
e onda de saques da semana passada, o clima é tranqüilo na
Faixa de Gaza. A polícia palestina deu lugar aos homens da Força
Executiva do Hamas, com fardas de camuflagem azul, fuzis e coturnos. Até
os guardas de trânsito são do Hamas: bonés verdes,
jalecos fosforescentes novos em folha e - um jornalista palestino chama
a atenção - sandálias. Todos, obviamente, de barba.
Por via das dúvidas, boa parte dos homens comuns também
deixa crescer os pelos do rosto. Não há mais mulheres sem
o véu islâmico. Novidades para os palestinos, um dos povos
mais seculares do mundo árabe-muçulmano. "Pior do que
isso, não pode ficar", diz Heba, uma contadora de 27 anos,
que trabalha numa organização não-governamental.
"Perdi toda a esperança", conta Ashraf Azzam, 22 anos,
vendedor numa loja de roupas femininas. "A situação
só piora. Deixei de lado meus planos." A loja de blusas, saias
e calças ocidentais está às moscas. As garotas poderiam
sair com essas roupas? "Podem usar em casa", argumenta Azzam. Ao contrário
do que acontece na Cisjordânia, onde tanto o Hamas quanto o Fatah
são abertamente criticados pelo confronto violento, o Estado
não encontrou ninguém nas ruas de Gaza que falasse mal do
grupo islâmico no poder. No máximo, demonstram descontentamento
e desilusão com a situação em geral. A maioria não
quer nem dar entrevista - coisa incomum entre os palestinos. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |