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Surge
em Gaza a dissidência islâmica do Fatah |
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LOURIVAL SANTANNA |
Quinta-feira,
21 de junho de 2007
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GAZA Os moradores de Gaza
ainda nem se acostumaram com as bandeiras do Hamas hasteadas nos escritórios
do governo e nas bases militares onde antes tremulavam as bandeiras palestinas,
e uma nova bandeira surgiu ontem para aturdi-los ainda mais. No meio da
tarde, nas principais avenidas da cidade, homens vestidos de preto, alguns
armados com fuzis, penduraram nos postes e no Centro Cultural de Gaza
bandeiras até então desconhecidas. Trata-se do novíssimo
Fatah al-Yasser. Com a imagem do líder histórico dos palestinos,
Yasser Arafat, totalmente verde, a bandeira é um híbrido
de duas simbologias palestinas violentamente separadas na ofensiva militar
do Hamas contra o Fatah, que deixou mais de cem mortos na semana passada.
Arafat, fundador do Fatah no fim dos anos 50, é o ícone
do nacionalismo secular palestino; o verde, a cor do profeta Maomé,
colore a bandeira do movimento fundamentalismo islâmico. "Estamos criando
um novo movimento, que terá um programa político próximo
ao do Fatah, mas adepto às tradições islâmicas,
sem ser tão radical quanto o Hamas", explicou ao Estado
o porta-voz do grupo, Nael al-Sharif. Segundo ele, a nova facção,
que já nasce com 5 mil homens armados, não reconhece o governo
de emergência formado há uma semana pelo presidente da Autoridade
Palestina, Mahmud Abbas, nem a destituição do primeiro-ministro
Ismail Haniyeh, líder do Hamas. "Só existe um governo,
aprovado pelo Parlamento palestino, e que inclui todas as facções",
disse o porta-voz, repetindo as visões do Hamas. A situação
foi clareando quando o líder do novo movimento estacionou em frente
ao Centro Cultural: Khaled Abu Hilal, um dissidente do Fatah, inimigo
de morte do líder máximo da facção na Faixa
de Gaza, Mohammed Dahlan. Hilal chegou no vistoso Ssangyong Chairman preto
que pertencia ao ex-ministro Nabil Shaath, um dos líderes do Fatah
na Faixa de Gaza. O carro, assim como muitos outros, foi confiscado pelo
Hamas durante a tomada do território. Às vezes um carro
diz mais que uma bandeira. Segundo analistas, o Hamas quer provar, com
o Fatah al-Yasser, sua tese de que só livrou Gaza da "banda
podre" do Fatah, e não está impondo um regime de partido
único. Outra garantia do
Hamas que os moradores de Gaza parecem olhar com desconfiança é
a de que o movimento não pretende impor o código de comportamento
estrito do Islã. O repórter do Estado estarreceu
um funcionário do hotel ao pedir uma cerveja - bebida comum nos
hotéis da Cisjordânia. "Cerveja? Você está
em Gaza, sob o Hamas", situou o funcionário. Mulheres sem
véus na cabeça ou com roupas ocidentais praticamente desapareceram
das ruas e muitos homens pararam de se barbear. Na praia de Gaza ontem,
numa tarde de verão particularmente tórrida, o Estado
só encontrou mulheres com o corpo inteiramente coberto. A maioria
trajava chador, a vestimenta preta, em um contraste desconcertante com
a areia e o azul do Mar Mediterrâneo. Não há
sinais muito visíveis de desabastecimento na Faixa de Gaza, apesar
de a Passagem de Karni, por onde entram e saem os produtos, estar fechada
há dez dias. O Programa Mundial de Alimentação da
ONU estima, no entanto, que o preço da farinha de trigo tenha subido
40%, e a escassez comece dentro de duas a quatro semanas. A situação
esteve relativamente tranqüila ontem - com exceção
de um choque no sul do território entre o Exército israelense
e milicianos palestinos, que deixou seis palestinos mortos e um israelense
ferido. E do lançamento de cinco foguetes Qassam pelo Hamas no
Deserto do Neguev, que deixou três israelenses feridos. Mas as marcas do maior
confronto armado entre os palestinos estão por toda parte na cidade,
demonstrando que a relativa rapidez com que o Hamas capturou o território
- uma semana - não significa que tenha sido sem resistência.
As grandes vidraças da fachada do hotel em que o repórter
do Estado está hospedado converteram-se em pequenos cacos de vidro
azuis amontoados num canto do meio-fio. O carro em que trafega também
não tem os vidros de trás, e as rachaduras no seu pára-brisa
formam uma teia. Há muitos edifícios parcialmente incendiados
ou atingidos por balas de fuzis e metralhadoras. O balneário
Shalihad (chalés), o mais badalado da Praia de Gaza, construído
em 1996 por ninguém menos que Suha Arafat, mulher do líder
palestino, foi incendiado pelos partidários do Hamas. O pretexto:
inimigos do Fatah tinham se abrigado ali. O lugar precisava ser "purificado".
A mensagem, para muitos moradores de Gaza: a "corrupção
moral" do nacionalismo secular é passado. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |