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Facção
impõe segurança em Gaza |
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LOURIVAL SANTANNA |
Terça-feira,
26 de junho de 2007
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GAZA No fim da tarde de
terça-feira, Rebhi Salim el-Ashi, de 65 anos, esperava sentado
numa cadeira de plástico na calçada por interessados em
alugar sua sala comercial, recém-pintada de branco, na Avenida
Omar al-Mukhtar, uma das principais de Gaza. Apenas quatro dias depois
de o Hamas tomar o controle militar sobre a Faixa de Gaza, numa sangrenta
batalha com o Fatah que deixou mais de cem mortos, o otimismo de El-Ashi
poderia parecer meio fora de lugar. "Agora está
muito bom, porque existe segurança", explicou El-Ashi. "Antes,
ninguém podia andar nas ruas, de medo dos criminosos. Agora, estamos
tranqüilos", disse o aposentado. Seu primo Suleiman el-Ashi,
um jornalista de 22 anos, que trabalhava no jornal Palestina, pertencente
ao Hamas, foi morto há um mês pelo Fatah, num primeiro round
da violência, que deixou mais de 40 mortos, antes de uma delegação
egípcia obter uma curta trégua entre as duas facções. "A luta não
foi entre o Hamas e o Fatah, mas contra uma parte do Fatah, que praticava
crimes porque não queria a estabilidade e a segurança em
Gaza", analisa El-Ashi. "O Hamas ganhou as eleições,
mas o mundo não quer o Hamas nem o Islã na Palestina."
El-Ashi não é o único que responsabiliza o Fatah
pela onda de seqüestros e assassinatos. "A segurança
melhorou", testemunha Youssef al-Makadma, dono das fábricas
de biscoitos e de sorvetes Al-Arees, e um dos mais bem-sucedidos empresários
da Faixa de Gaza. "Havia muitos bandidos. Como não há
atividade econômica, todo mundo queria roubar. Agora, pode-se sair
na rua a qualquer hora, sem problemas." Nas cidades, os homens
de farda azul camuflada das Forças Executivas do Hamas patrulham
as ruas. Nas estradas, milicianos do Hamas de camisetas e calças
pretas inspecionam os carros e abordam os passageiros, em barreiras erguidas
com blocos de concreto e sacos de areia. Até a tomada
da Faixa de Gaza pelo Hamas, há duas semanas, o Fatah estava a
cargo da segurança interna, monopolizando praticamente todas as
forças armadas palestinas. Depois de vencer a eleição
em janeiro de 2006 e formar um governo em março, o Hamas não
conseguiu assumir o controle das forças de segurança, que
continuou nas mãos do presidente Mahmud Abbas, dirigente do Fatah.
Em compensação, Abbas permitiu que o Hamas formasse as Forças
Executivas. A vitória do
Hamas na eleição levou os Estados Unidos a cortarem a ajuda
financeira ao governo palestino. Teriam passado a entregá-la diretamente
ao Fatah, além de lhes oferecerem treinamento militar e armamentos.
Pelo menos é o que se diz na região, embora o Fatah afirme
que a ajuda tenha ficado só na promessa. De qualquer forma, a versão
respaldou o Hamas em sua acusação de que o Fatah, favorável
a um acordo de paz com Israel, "vendeu-se" para os Estados Unidos. Diante do visível
robustecimento das Forças Executivas e das milícias - aparentemente
com ajuda do Irã e da Síria -, toda vez que o Hamas era
questionado sobre suas intenções, dizia que estava se armando
para enfrentar Israel. No fundo, a tomada
de Gaza culminou uma inversão nas prioridades tanto do Fatah quanto
do Hamas. Criado para combater Israel, o Hamas passou a se ocupar de se
preparar para tomar o poder em Gaza - e no futuro, talvez, também
na Cisjordânia. Já o controle das forças de segurança
pelo Fatah lhe servia, prioritariamente, para se manter no poder, como
um fim em si mesmo - e não para cuidar da segurança. Isso
explica, em parte, a criminalidade descontrolada da qual se queixam os
moradores de Gaza. Mas não só isso. Na miríade
de grupos paramilitares - o Hamas tem as Brigadas Ezzedin Al-Qassam, o
Fatah, os Mártires de Al-Aqsa, e há ainda a Jihad Islâmica
- com suas respectivas ramificações, tornou-se cada vez
mais difícil distinguir o crime político do comum. O Jeish
al-Islam (Exército do Islã), que mantém desde 12
de março no cativeiro o jornalista Alain Johnston, da BBC, exige
a libertação do clérigo radical Abu Qatada, preso
na Grã-Bretanha. Mas, segundo se comenta em Gaza, US$ 5 milhões
também resolveriam o problema. O Fatah diz que o
Jeish al-Islam pertence ao Hamas. O Hamas diz que o seqüestro é
obra de aliados de Mohammed Dahlan, líder do Fatah na Faixa de
Gaza e conselheiro de Segurança Nacional do presidente Mahmud Abbas,
instalado em Ramallah, na Cisjordânia, depois da derrota. "Johnston
foi seqüestrado pela família Dormush, que é apoiada
por Dahlan", assegurou ao Estado o capitão Hassan al-Sumassi,
do Hamas, novo comandante da prisão de Al-Saraya, quartel-general
da Força Nacional palestina. "Não somos os taleban." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |